sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A leitura de mapas na prova do Enem.

A linguagem cartográfica é algo extremamente importante, pois ela configura-se como uma forma de comunicação operada a partir da representação de um dado lugar do espaço em um plano. No Enem, a cartografia pode surgir de duas formas diferentes: com perguntas diretas sobre o tema ou com a utilização dos conceitos para responder a assuntos de outras áreas, o que tem mais a ver com o estilo de prova que o Enem costuma cobrar. 
Confira o exemplo a seguir:
(ENEM – 2013)

                                         Mapa 01 – Distribuição da população Brasileira


                                     Mapa 02 – Conflitos em terras indígenas no Brasil

Os mapas representam distintos padrões de distribuição de processos socioespaciais. Nesse sentido, a menor incidência de disputas territoriais envolvendo povos indígenas se explica pela
a) fertilização natural dos solos.  
b) expansão da fronteira agrícola.  
c) intensificação da migração de retorno.  
d) homologação de reservas extrativistas.  
e) concentração histórica da urbanização. 
 
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Essa questão envolve uma mescla entre diferentes temas: a luta pela terra, o processo de urbanização e a distribuição das atividades no espaço geográfico do Brasil. No entanto, o candidato não necessariamente precisaria saber tudo sobre esses assuntos para conseguir “matar” a questão. Bastaria somente ler corretamente o que foi representado nos cartogramas. 
No Mapa 1, como o título indica, está representada a distribuição espacial da população brasileira, que historicamente se concentrou na região Sudeste, onde, por isso, existem as maiores e mais urbanizadas cidades do país. Podemos perceber, com a observação das legendas, que a maior parte dos quantitativos urbanos encontra-se em zonas litorâneas, com destaque fornecido pelo próprio mapa para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. 
Já no segundo mapa, o título indica a distribuição dos conflitos ocorridos em propriedades indígenas. A figura apresenta três tipos de legendas: “terra indígenas”, “garimpeiros e madeireiros”, e “fazendeiros, posseiros e pressão de políticos locais (conflitos de terras)”. O que podemos notar é que a maioria dos territórios indígenas, bem como os conflitos e luta pela posse de terras para uso, encontra-se na região Norte e no estado do Mato Grosso, além do oeste do Maranhão. 
Comparando, então, os dois mapas, notamos que há um contraponto, em que as áreas já urbanizadas apresentam uma quantidade menor de disputas entre indígenas e outros grupos pela terra, o que já seria suficiente para que o candidato assinalasse a letra E, que é o gabarito oficial da questão. Afinal, as áreas mais urbanizadas são justamente aquelas em que o processo de expulsão e dizimação dos índios já se concluiu inteiramente, o que aconteceu mais intensamente durante o período colonial. 
É por essas e outras que o candidato, ao se preparar para o Enem, deve sempre estar atento sobre o que é necessário para fazer corretamente a leitura dos mapas. Para isso, ele precisa estar por dentro de temas como os tipos de mapas de gráficos, a classificação e os elementos existentes nos mapas temáticos, a orientação pelos pontos cardeais, as legendas e os símbolos dos mapas, o uso e importância das escalas cartográficas, os diferentes tipos e utilidades das projeções e a formação das coordenadas geográficas e seus elementos. 

Tudo isso poderá ser de grande importância para auxiliar o estudante a resolver exercícios que, a princípio, podem parecer complexos, mas que acabam tornando-se fáceis quando a leitura dos mapas é facilitada. Por isso, mãos à obra e bons estudos!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

ENEM - ATUALIDADES

Olá, pessoal! O Exame Nacional do Ensino Médio, assim como a maior parte dos vestibulares, possui como um dos seus principais objetivos a realização de uma prova atual e contextualizada com os principais acontecimentos que marcaram o Brasil e o Mundo em um tempo recente. Por esse motivo, o candidato precisa estar ligado nos possíveis assuntos e notícias recorrentes a serem abordados pela banca examinadora. 
É necessário ressaltar que o mais importante ao estudar atualidades para o Enem não é decorar informações aleatórias sobre os principais casos, mas sim possuir um entendimento geral da implicação de tais acontecimentos sobre a contemporaneidade, que podem atingir não só as áreas das ciências humanas, mas todos os campos do conhecimento. 
Um acontecimento, por exemplo, que vem chamando as atenções em nível mundial e que pode gerar uma série de questões nas mais diferentes áreas do saber é a epidemia de ebola na África. Até o momento, centenas de pessoas morreram em algumas partes do continente, o que pode gerar questões tanto na área biológica quanto nos campos referentes aos aspectos históricos e geográficos das regiões africanas, o que ajuda a explicar a proliferação de problemas humanitários nessas áreas. Tais questões, de certa forma, relacionam-se com as raízes do subdesenvolvimento nos países africanos.
Outro assunto que também vem chamando a atenção é a retomada dos históricos conflitos entre Israel e Palestina. Essas questões remontam a tempos históricos de disputas territoriais e geográficas, além de também envolver as relações de poder de influência de grandes potências mundiais, com destaque para os Estados Unidos, principais aliados dos israelenses. Nesse ínterim, é importante uma compreensão geral sobre os principais acontecimentos dessa disputa, incluindo a polêmica criação do Estado de Israel, a importância de algumas regiões como a Faixa de Gaza e até mesmo o Muro de Israel. 
Além desses eventos, outro assunto importante que pode marcar a abordagem de atualidades no Enem é a postura geopolítica da Rússia, que nos últimos tempos vem adotando uma política mais firme diante de seus principais rivais internacionais: Estados Unidos e União Europeia. O principal ponto nesse âmbito é, sem dúvidas, a disputa de influências na Ucrânia, incluindo a anexação territorial da Crimeia pelos russos e as represálias adotadas pelas potências internacionais. No caso, a grande questão é a ofensiva geopolítica dos países ocidentais sobre a Ásia, sobretudo na zona da antiga União Soviética, que atualmente pode ainda ser considerada como uma região de profunda influência da Rússia. 
Já existem alguns autores, tanto na imprensa quanto nas Ciências Políticas, que afirmam que o mundo está passando pela redefinição de sua Ordem Mundial, em que, de um lado, estariam as potências do mundo desenvolvido, lideradas pelos Estados Unidos, e, de outro, os países emergentes, protagonizados pela Rússia e acompanhados por Brasil, Índia e China. Isso se deve a acontecimentos que envolvem tanto as declarações do governo brasileiro sobre os casos de espionagem praticados pelos EUA quanto à recente reunião da Cúpula dos BRICS, que vem definindo uma postura visando a uma independência econômica desses países em relação aos organismos internacionais, tais como FMI e Banco Mundial. 

Diante de tantas informações e acontecimentos que marcam o mundo contemporâneo, o candidato que se prepara para o Enem deve sempre estar informado sobre esses e outros casos atuais, buscando informações não só das notícias em si, mas dos conhecimentos históricos, geográficos e naturais que se relacionam a elas. 
Pessoal enviem duvidas e sugestões para o blog. Vou dar prioridade aos artigos de Geografia para o ENEM - 2014 nos meses de agosto, setembro e outubro.

domingo, 3 de agosto de 2014

Sustentabilidade passará a integrar rotina das empresas brasileiras.

A adoção de ações sustentáveis passará a fazer parte da rotina das empresas brasileiras. O Grupo de Trabalho sobre Relatórios de Sustentabilidade reuniu-se pela primeira vez nesta terça-feira (29/07), em Brasília, para definir diretrizes capazes de orientar o governo federal na construção de uma estratégia nacional de promoção de documentos desse tipo. Os relatórios deverão divulgar o desempenho ambiental, social e econômico das organizações, além de estabelecer objetivos e monitorar possíveis impactos. A expectativa é que, até o fim do ano, se formalize documento com sugestões para a formulação da estratégia nacional.
O incentivo à produção dos relatórios ocorre no âmbito do Grupo dos Amigos do Parágrafo 47, um dos legados da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), realizada em 2012. O grupo faz referência ao Parágrafo 47 do documento final da Rio+20 – O Futuro que Queremos –, que reconhece a importância da comunicação e divulgação do impacto ambiental das atividades realizadas pelas empresas. O texto reforça, ainda, o papel dos governos na promoção da transparência das decisões e ações sustentáveis.
Interesse – A participação do empresariado é fundamental na definição da estratégia nacional de incentivo à sustentabilidade na economia brasileira. A secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Regina Gualda, destacou o papel de cada um dos atores envolvidos com o processo. “O interesse do governo é ouvir todos os envolvidos no sentido de formular diretrizes para uma futura política de promoção dos relatórios de sustentabilidade”, afirmou.
O diretor do Departamento de Produção e Consumo Sustentável do MMA, Ariel Pares, destacou o envolvimento da comunidade internacional com a promoção do desenvolvimento sustentável por meio dos relatórios. Para ele, a questão foi um dos destaques da Rio +20 e é essencial que a estratégia nacional seja definida. “O Parágrafo 47 é um compromisso de natureza internacional e tanto os governos quanto o setor empresarial entenderam sua importância”, ressaltou.

A previsão é que o Grupo de Trabalho se reúna periodicamente até o fim do ano para concluir o documento de orientação com recomendações e sugestões para a estratégia nacional. Além dos representantes do MMA e dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores, o Grupo de Trabalho conta com membros dos seguintes organismos: Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Banco Central, Comissão Brasileira de Acompanhamento de Relatórios Integrados, Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), Carbon Disclosure Project (CDP), Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBEDS), Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Global Reporting Initiative (GRI) e Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon). (Fonte: MMA)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Em 2012, Terra se salvou por pouco de forte tempestade solar.

Em 2012, uma erupção solar provocou uma poderosa tempestade que passou perto da Terra, mas que era grande o suficiente para "devolver a civilização moderna ao século XVIII", informou a Nasa.
O fenômeno, que passou perto da órbita terrestre em 23 de julho de 2012, foi a tempestade mais poderosa dos últimos 150 anos, segundo comunicado da agência espacial americana.
Na Terra, no entanto, ninguém se deu conta disso. "Se a erupção tivesse acontecido uma semana antes, a Terra teria ficado na trajetória", disse Daniel Baker, professor de Física Atmosférica e Espacial da Universidade do Colorado. Ao invés disso, a tempestade impactou a nave espacial STEREO-A, um observatório solar equipado "para medir parâmetros de eventos deste tipo", acrescentou a agência.
Segundo dados analisados por cientistas, a tempestade teria sido comparável à última conhecida com o nome de Carrington e que aconteceu em 1859. Também teria sido duas vezes mais forte que a tempestade solar que deixou sem energia a província de Quebec, no Canadá, em 1989. "Com os últimos estudos, me convenci ainda mais de que os habitantes da Terra são incrivelmente sortudos por essa erupção de 2012 ter ocorrido como foi", disse Baker.
A Academia Nacional de Ciências avaliou que uma tempestade solar como a de 1859 poderia custar hoje 3 bilhões de dólares e poderia levar anos de reparos. Os especialistas afirmam que as tempestades solares provocam apagões, o que bloqueia qualquer aparelho, de um rádio a um GPS, passando pelo fornecimento de água que depende de bombas elétricas.
As tempestades costumam ser repelidas pelo escudo magnético da Terra, mas um impacto direto poderia ser devastador. Há 12% de probabilidades de que uma grande tempestade solar como a de Carrington atinja a Terra nos próximos dez anos, segundo o físico Pete Riley, que publicou recentemente um artigo na revista Space Weather sobre esse tema.

Sua pesquisa se baseou em uma análise de registros de tempestades solares nos últimos 50 anos.
Portal UOL.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

FENÔMENO EL NIÑO EM DESENVOLVIMENTO NO OCEANO PACÍFICO EQUATORIAL.



Durante o mês de maio, as condições oceânicas observadas indicaram a presença de águas mais quentes em todo o Oceano Pacífico Equatorial. Nas faixas central e oeste deste oceano foram observadas anomalias positivas de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) da ordem de 1°C até 2°C. Por outro lado, na região do Oceano Pacífico Equatorial leste  as anomalias positivas de TSM foram da ordem de 1°C até 3°C durante o mês de maio. Na comparação com o mês de abril, observa-se que os maiores aquecimentos ocorreram na região da Indonésia e principalmente na costa oeste da América Latina, mais especificamente na região da costa do Peru e do Equador. Nessas áreas as anomalias de TSM no mês de maio apresentou valores da ordem de 2°C mais elevados do que o mês de abril. Contudo, nas demais áreas da porção central e leste do referido Oceano as diferenças entre as anomalias de TSM não passaram da ordem de 1.5°C. Esta mudança do padrão de TSM está associada ao aquecimento das águas subsuperficiais em função da propagação para leste de uma onda de Kelvin oceânica. Esta onda apresentou águas anomalamente mais quentes entre 150 metros de profundidade e camadas mais próximas à superfície, com valores da ordem de até 5°C acima da climatologia.
A maioria dos modelos de previsão climática apontam para o desenvolvimento da fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) no decorrer do trimestre de JAS/2014. Entretanto, apesar da concordância entre os modelos, há um consenso entre os especialistas de previsão climática de que esta fase quente do ENOS venha se configurar com mais intensidade na primavera (SON/2014). Contudo, ainda há incertezas em relação à sua intensidade.
Texto atualizado em 01/07/2014 (FONTE: INPE)













efeitos do El niño no inverno

terça-feira, 1 de julho de 2014

O jogo geopolítico da Rússia e da China


Governos, políticos e mídia no mundo “ocidental” parecem incapazes de compreender os jogos geopolíticos na forma como são praticados por quaisquer outros. As suas análises do anunciado novo acordo da Rússia e da China são um surpreendente exemplo disto.
 
Em 16 de maio, Rússia e China anunciaram ter assinado um “tratado de amizade” que duraria “para sempre” mas não é uma aliança militar. Simultaneamente, anunciaram um acordo sobre o gás, pelo qual os dois países irão construir um gasoduto para exportar gás russo para a China. A China vai emprestar à Rússia o dinheiro com o qual esta construirá a sua parte do gasoduto. A Gazprom (maior produtora russa de gás e de petróleo) fez algumas concessões de preço à China, questão que reteve durante algum tempo a assinatura do acordo.
 
Se formos ler os meios de comunicação do dia 15 de maio, estão cheios de artigos explicando por que um acordo com este era improvável. Quando, mesmo assim, ele foi assinado no dia seguinte, os governos ocidentais, os políticos e a mídia dividiram-se entre os que o viram como uma vitória geopolítica do presidente russo Vladimir Putin (e a deploraram) e os que argumentaram de que não irá fazer muita diferença em termos geopolíticos.
 
É bastante claro, quando se olha para as discussões e as votações do Conselho de Segurança da ONU dos últimos anos, que a Rússia e a China partilham uma aversão às diversas propostas priorizadas pelos Estados Unidos (e frequentemente com colaborações de vários países europeus) para autorizar o envolvimento direto (abrindo em última instância o caminho ao envolvimento militar) na guerra civil na Ucrânia e nos múltiplos conflitos no Oriente Médio.
 
As sanções unilaterais que os Estados Unidos já impuseram à Rússia devido ao seu alegado comportamento na Ucrânia e a ameaça de impor ainda mais sanções apressaram o desejo da Rússia de encontrar novas saídas para o seu gás e petróleo. E isto, por seu turno, leva a muita conversa sobre uma ressurreição da Guerra Fria entre Rússia e Estados Unidos. Mas será este na verdade o ponto principal do novo acordo Rússia-China?
 
Parece-me que ambos os países estão realmente interessados numa reestruturação das alianças entre Estados. O que a Rússia realmente procura é um acordo com a Alemanha. E o que a China realmente quer é um acordo com os Estados Unidos. E o truque é anunciar esta aliança “para sempre” entre eles.
 
A Alemanha está claramente dividida internamente quanto à perspetiva de incluir a Rússia na esfera europeia. A vantagem para a Alemanha de um acordo deste tipo seria consolidar a base de clientes russos para a sua produção, garantir as suas necessidades energéticas e incorporar a força militar russa no seu planeamento global de longo prazo. Como isto inevitavelmente significaria a criação de uma Europa pós-Otan, há oposição à ideia não só dentro da Alemanha mas, evidentemente, também na Polônia e nos Estados bálticos. Do ponto de vista da Rússia, o objetivo do tratado de amizade Rússia-China é fortalecer a posição dos que na Alemanha querem trabalhar com a Rússia.
 
A China, por outro lado, está fundamentalmente interessada em amansar os Estados Unidos e reduzir o seu papel na Ásia oriental. Mas, dito isto, quer reforçar, não enfraquecer, as suas ligações com Washington. A China procura investir nos Estados Unidos aos preços de saldo que considera estarem a ser oferecidos. Quer que os Estados Unidos aceitem a sua emergência como potência regional dominante na Ásia oriental e do sudoeste. E quer que os Estados Unidos usem a sua influência para impedir o Japão e a Coreia do Sul de se tornarem potências nucleares.
 
É claro que o que a China quer não está em consonância com a linguagem ideológica que prevalece nos Estados Unidos. Porém, parece haver dentro dos Estados Unidos um apoio discreto a esta evolução de alianças, especialmente no interior das principais estruturas empresariais. Tal como a Rússia quer usar o tratado de amizade para encorajar certos grupos na Alemanha a moverem-se na direção que considera mais útil, também a China deseja fazer o mesmo com os Estados Unidos.
 
Será que estes jogos geopolíticos vão funcionar? Possivelmente, mas isso de forma alguma é certo. Ainda assim, nas perspetivas tanto da Rússia quanto da China, têm tudo a ganhar e muito pouco a perder usando este ardil. A questão real é como o debate interno na Alemanha e nos Estados Unidos vai evoluir no futuro próximo. Quanto ao argumento de que o mundo está a voltar à Guerra Fria entre os Estados Unidos e a Rússia, pensem nele como o ardil dos que compreendem o jogo da Rússia e da China e tentam contrariá-lo.
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 o Esquerda.net.

sábado, 14 de junho de 2014

O fracasso americano no Oriente Médio (Carta Maior)

Mesmo antes de sua ascensão ao poder, em 2001 (governará até 2009), George Bush imaginou as possibilidades ilimitadas de construção de novas bases de poder americano. Um dos pilares, deste poder renovado, seria a reconstrução da presença política, militar e econômica no coração do Oriente Médio. Assim, tendo um largo tripé de força na região, formado pela Turquia (membro da OTAN), Israel e Egito, com a presença financeira da Arábia Saudita, acreditavam poder tomar um país médio, rico em recursos, com uma posição central e uma boa elite formada (e vivida) nos exílios norte-americano e britânico, como “região-pivô” para a renovação da hegemonia norte-americana. Este país seria o Iraque. Uma ditadura laica, com veleidades passadas de tipo “socialismo árabe” (do Partido Baath ou Bass) e um ex-aliado, agora abandonado, da recém-extinta URSS.
O dominar o Iraque, um incômodo país com um ditador instável (mas, que já servirá aos interesses norte-americanos contra o seu vizinho, o Irã, durante a crudelíssima guerra Irã-Iraque, entre 1980-1988), seria um golpe central para pacificar a região e, acumulando forças neste “tabuleiro”, potencializar suas ações em outros “tabuleiros” do xadrez mundial. Assim, dominar o Iraque equivalia:
1. Exportar para o Oriente Médio um modelo de país-cliente, dócil aos interesses americanos e um excelente destino para empresas americanas, em especial gás/petróleo e serviços;
2. Um forte reforço da posição dos EUA e suas empresas em disputa com a “Velha Europa”, que embora “pacifista” e cooperativa (aos olhos de Washington) era um concorrente aos interesses econômicos americanos na região;
3. Assumiam, os EUA, controle do fluxo de petróleo do Golfo Pérsico (Iraque, Arábia, Emirados e da própria segurança do transporte dos recursos do Irã) para o mais novo e sério concorrente, a China Popular – o controle do Golfo Pérsico asseguraria o controle do fluxo de combustível para o Japão, Coréia e Taiwan; e, em fim, o Irã, a grande força de resistência à hegemonia norte-americana ficaria isolados e bloqueados, com suas indústrias sucateadas e com medidas restritivas militares e econômicas que poderiam culminar no seu colapso político e econômico ou no amadurecimento de um ataque preventivo (com ou sem a participação de Israel).
Este foi o “sonho” geopolítico dos chamados “neoconservadores” (tais como Donald Rumsfeld, John Bolton, Dick Cheney e “Condi” Rice, todos figuras de proa do governo Bush). Tal plano, centrado num forte lobby da indústria bélica e da indústria de gás/petróleo junto ao Congresso Americano tinha como objetivo fortalecer e centrar seus investimentos bilionários em armas no “CentCom” – o poderoso complexo militar americano entre o Mar Mediterrâneo e a Índia. Assim, empresas bélicas, empreiteiras, serviços, gás/petróleo e militares, junto dos fundamentalistas cristãos (interessados na reconstrução do Templo de Jerusalém para o ansiado “Segundo Advento” e muito próximos do então presidente Bush, ele mesmo um “reborn” cristão) e dos interesses do Estado de Israel, forjariam um novo mapa do mundo, abrindo caminho para “mais um século” americano de poder mundial – the new american century, como então afirmavam.
O brutal e inesperado ataque da Al-Qaeda, de 11 de setembro de 2001, contra os EUA não foi a causa para os ataques, neste mesmo ano, ao Afeganistão dos talibãs-Al Qaeda ou, em 2003, o ataque – contra todas as regras do direito internacional e dos organismos mundiais – ao Iraque em 2003 – em busca de imaginárias “armas de destruição em massa”.  O “plano” já existia e o ataque terrorista aos EUA apenas apressou, justificou e uniu, naquele momento, os americanos em torno do seu ambicioso plano de lançar as novas bases de uma hegemonia global num mundo pós-Guerra Fria (1947-1991) e pós-URSS, onde os EUA reinariam sozinhos.
A partir de então, tudo começou a dar errado.
A complexidade antropológica e cultural do Afeganistão e do Iraque, a emergência de novas formas bélicas, de tipo reticular, constituído em redes, de organização e luta contra inimigos muito mais fortes, deu aos resistentes muçulmanos condições de desenvolver, conduzir e impor novas técnicas de guerra irregular (ou assimétricas). Enquanto as potências dominantes conduziram todos os meios e recursos bélicos para formas altamente tecnológicas de combate – com drones, cyberwar, aviônica e balística – os combatentes, resistentes em seus territórios -, buscaram combinar as tradições da guerra irregular (incluindo o chamamento religioso, de tipo jihadista), com novas formas tecnológicas (informáticas de consumo direto, convertendo produtos de uso corrente, tais como pcs, telefonia móvel, gps, etc...) em forte elemento de logística de uma nova guerra. Era a emergência das estratégicas de luta do fraco contra os fortes – como prenunciava Lucien Poirier ( ver o livro heterodoxo do estrategista francês, “La Crise des fondements, Paris, ISC/Economica, 1994”), antes mesmo da guerra começar, mas já crítico atento da estratégia americana pós-Guerra Fria.
Assim, as acusações de “terrorismo” como sendo a “arma” por excelência da resistência no Afeganistão, Paquistão e Iraque é apenas uma parte, e não a mais importante, do enfrentamento antiamericano no Oriente Médio e Ásia Central.
As formas de luta desenvolvidas pela “nebulosa” Al-Qaeda e dos seus aliados e correlatos envolvia, e envolvem todas as formas tradicionais de guerra irregular (desde a velha guerrilha no deserto e nas montanhas; sabotagem; ataques contra alvos econômicos – uma das razões para os EUA acelerar sua saída do Iraque e do Afeganistão, já sob o governo Obama – e uma intensa luta ideológica, baseada na especificidade da religião muçulmana/sunita e nas tradições culturais e antropológicas (quase sempre desprezadas como “tribalismo”) combinados com cyberwar.
O governo George Bush pode, contudo, assistir ainda em Washington o fracasso de todo este ambicioso projeto: paralisia no Afeganistão; desmoronamento no Paquistão; expansão dos movimentos “islâmicos” para os países do Mar Vermelho (Somália, Iêmen, Omã) e do “Sahel” africano (República Centro-africana, Mali, Níger) e, em fim, a perda de controle do próprio Iraque, afundado numa rotina letal de ataques, com o envolvimento do governo local numa prisão de alguns quilômetros quadrados, a “Zona Verde”, onde impera a corrupção e inépcia militar e administrativa.
Em casa, Bush, deixava um país marcado pelo trauma do furacão Katrina, com os pobres abandonados; guerras inúteis e perdidas e a maior crise econômica mundial depois de 1929.
Foi neste vazio que Barack Obama tornou-se uma esperança. Era diferente, deveria fazer a diferença e pouco depois de assumir a presidência foi agraciado com o Premio Nobel da Paz. Talvez o prêmio mais prematuro de toda a história do galardão.
Obama (empossado em 2009) buscou, acossado pela crise econômica que não cede malgrado uma constante gangorra de números, uma saída honrosa, rápida e econômica para as guerras buscadas por Bush. Assim, planejou a retirada do Iraque e anunciou a saída do Afeganistão – considerando a “missão” finalizada.
Os habitantes destes países, já convencidos das virtudes do modelo americano, estariam em condições de “defenderem-se” a si mesmos. Claro, Obama transformava a estratégia americana de Bush – intervenção militar, uso massivo de “armas inteligentes” e ocupação de territórios – Obama buscou enfraquecer os inimigos através do uso em larga escala da Inteligência Estratégica combinada forças especiais – como no caso da morte de Bin Laden, morto em 2011, o maior sucesso em política externa da presidência Obama – e o uso disseminado, incontrolado, e sem critérios claros, dos temíveis “drones”, uma arma que mata indistintamente em grande distância. Pelo seu uso massivo morrem centenas de civis inocentes... Mas, ao menos, não havia baixas americanas – o fator mais importante para a imagem do próprio Obama.
Obama foi, ainda, atropelado pelo fenômeno das diversas “Primaveras” árabes. Da Tunísia até a Síria, por todo Golfo Pérsico e, principalmente no Egito, as populações se revoltaram contra regimes aliados históricos do Ocidente. Em apenas um caso, a Síria, o governo era um inimigo. A ideia de Obama – e de seus entes financiadores, de agentes e “blogs” financiados pelo mundo todo, diretamente ou indiretamente ligado às agências de governo norte-americana – em prol de mais e mais “primaveras” - não imaginaram que a opinião pública árabe, quando pudesse se manifestar livremente, seria tão antiamericana. Nos países em que Washington mais esperava a formação de governos “modernos” e pró-ocidentais, como na Líbia e no Egito, emergiram regimes de forte caráter anti-israelense e antiamericano, culminando em tragédias do Cairo, Benghazi e Trípoli.
Na Síria, onde uma ditadura de xiitas e cristãos lutavam contra uma vaga de combatentes sunitas, muitos vindos do Iraque e do Afeganistão, a Europa e os Estados Unidos, apoiados pelas monarquias petroleiras do Golfo Pérsico (à frente a Arábia Saudita) e com apoio da Turquia e de Israel, armaram e municiaram fortemente frações da própria Al-Qaeda. Esta, tão radical em seus objetivos de criar um califado santo no coração do Oriente Médio, que rompe com a própria Al-Qaeda. Essa é a origem do “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS) que hoje atravessa as fronteiras entre os dois países e avança sobre as maiores cidades do Iraque.
A tomada de Mossul, desde 8 e 9 de junho de 2014, com o colapso de duas divisões completas de exército iraquiano (com a debandada de cerca de 30 mil homens) armados e treinados pelos EUA, é o sinal mais gritante que da política americana de um renovado domínio sobre o Oriente Médio, da preeminência do poder militar do “CentCom” e do controle do petróleo/gás local por empresas americanas) nada mais resta.

Neste momento, com as tropas inimigas a acerca de 110 quilômetros, da capital Bagdá, depois de mais de cem mil nortes, Obama deve refletir sobre como não terminar seu governo na solidão da derrota de George Bush.