quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mundo produz comida suficiente, mas fome ainda é uma realidade

Um estudo publicado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) no dia 29 de abril de 2016 mostrou que a produção mundial de alimentos é suficiente para suprir a demanda das 7,3 bilhões de pessoas que habitam a Terra. Apesar disso, aproximadamente uma em cada nove dessas pessoas ainda vive a realidade da fome.
A pesquisa põe em xeque toda a política internacional de combate à subnutrição crônica colocada em prática nas últimas décadas. Em vez de crescimento da produção e ajudas momentâneas, surge agora como caminho uma abordagem territorial, que valorize e potencialize a produção local.
Embora os números absolutos estejam caindo, o tema ainda é um dos mais delicados da agenda internacional. A questão é tão antiga quanto complexa, e se conecta intrinsecamente com a estrutura política e econômica sobre a qual o sistema internacional está construído.
Concentração da renda e da produção falta de vontade política e até mesmo desinformação e consolidação de uma cultura alimentar pouco nutritiva são fatores que compõe o cenário da fome e desnutrição no planeta. Entenda abaixo as questões que envolvem o tema.
QUAIS são as definições para fome?
            Existem diferentes estados de insuficiência alimentar categorizados, e todos eles afetam tanto o desenvolvimento daqueles atingidos quanto da sociedade e da economia do país. Essa é a classificação feita pela FAO, principal organização internacional a tratar do tema.
INSEGURANÇA ALIMENTAR - Situação de quem não tem garantia de acesso a quantidades suficientes de comida saudável e nutritiva para seu desenvolvimento normal. Causada pela inexistência de comida à disposição, falta de poder aquisitivo para a compra de alimentos ou uso inadequado da comida em casa. Pode ser crônica, temporária ou transitória.
MÁ NUTRIÇÃO - Condição fisiológica anormal, causada por consumo inadequado de nutrientes. Inclui desnutrição.
DESNUTRIÇÃO - Condição de absorção deficiente de nutrientes causada por repetidas doenças infecciosas.
SUBNUTRIÇÃO - Estado de incapacidade em obter comida suficiente para atingir os níveis mínimos de energia necessários para uma vida saudável e ativa.
FOME - Termo sinônimo de subnutrição crônica, ou seja, quando o estado de subnutrição dura por mais de um ano.

Algumas ondas de fome

ÍNDIA (1783)
Um dos maiores exemplos históricos de ondas de fome causadas por fatores naturais. O El Niño - fenômeno natural que muda as temperaturas do oceano, causando alterações climáticas ao redor do mundo - fez com que os anos de 1783 e 84 fossem excepcionalmente gelados no norte da Índia, causando a destruição das plantações e matando milhões de pessoas. Somando os mortos com a onda de fome que abateu o sul do país dois anos antes, a quantidade total chega a 11 milhões.
IRLANDA (1845)
A chegada de um fungo proveniente das Américas destruiu as plantações de batata do país por cinco anos seguidos. Um terço dos irlandeses dependiam do tubérculo como base de sua alimentação. A destruição das fazendas, combinada ao bloqueio comercial imposto pela Inglaterra, que impedia os irlandeses de importar comida, gerou pelo menos um milhão e meio de mortos (um oitavo de toda a população) e dois milhões de imigrantes.
CHINA (1958)
Tabu até hoje, o período é conhecido no país como “os três anos de dificuldade”. Durante o projeto político “Grande Salto Adiante”, do governo Mao Tsé-Tung, fazendas passaram para as mãos do Estado, e a mão-de-obra foi realocada. Isso, combinado a questões climáticas, fez com que a produção fosse insuficiente para toda a população chinesa. As mortes aconteceram em praticamente todas as províncias do país, e historiadores calculam que a fome matou por volta de 36 milhões de pessoas.
COREIA DO NORTE (1994)
Kim Jong Il assume o país na Guerra Fria e dá prosseguimento à política de destinar a produção de alimentos ao exército e à população da capital Pyongyang, sua base política. Em 1995, chuvas torrenciais destroem 15% das fazendas do país. A população rural entra em guerra com o governo, que é obrigado a pedir ajuda humanitária internacional. A situação dura até 1998. O saldo de mortos pela fome ficou em torno de três milhões de adultos - não se sabe o número exato de crianças.
COMO está a fome no mundo hoje
            As últimas décadas foram de grande evolução no combate à fome em escala global. Nos últimos 25 anos, 7,7% da população mundial superou o problema, o que representa 216 milhões de pessoas. É como se mais que toda a população brasileira saísse da subnutrição em menos de três décadas. Contudo, 10,8% do mundo ainda vive sem acesso a uma dieta que forneça o mínimo de calorias e nutrientes necessários para uma vida saudável, e 21 mil pessoas morrem diariamente por fome ou problemas derivados dela.
A DIVISÃO ENTRE PAÍSES RICOS E POBRES

         Na década de 1960, o mundo passou por um aumento populacional inédito devido à brusca queda na taxa de mortalidade, gerando preocupações sobre a capacidade dos países em produzir comida para todos. A solução encontrada foi de desenvolver tecnologia e métodos que aumentassem a produção.
Em 1981, o indiano ganhador do Prêmio Nobel de economia, Amartya Sen, em seu livro “Pobreza e Fomes”, identifica a existência de populações com fome mesmo em países que não convivem com problemas de abastecimento. O economista indiano traçou então, pela primeira vez, uma relação causal entre a fome e questões sociais - como pobreza e concentração de renda. Tirou, assim, o foco de aspectos técnicos e mudou o tom do debate internacional sobre a questão e as políticas públicas a serem tomadas a partir daí.
Duas metas mundiais, que foram traçadas nas últimas décadas em programas de combate a fome, venceram em 2015. Em 1996, a World Food Summit, sediada em Roma e com a participação de 182 países, estabeleceu o objetivo de “reduzir o número de pessoas desnutridas pela metade do nível [de 1996] no máximo até 2015”. A meta era ter hoje 515 milhões de pessoas passando fome. Mas ela não foi atingida, e atualmente há 795 milhões de pessoas nessa situação. 
O outro objetivo faz parte das Metas do Milênio da ONU, desenvolvidas em 2000 e assinadas em 2001. Se comprometia a reduzir, também pela metade, a porcentagem de pessoas com fome no mundo, tendo como base o período de 1990 a 1992. Nesse caso, a meta também não foi atingida: o índice era para estar em 9,3% da população mundial, mas ainda está em 10,8%.
Com a exceção do Oeste Asiático, todas as regiões foram capazes de diminuir a fome em alguma medida desde que as Metas do Milênio foram traçadas. Grandes contrastes, contudo, ainda permanecem: a América Latina conseguiu atingir um nível de fome inferior a 5%, mas Oceania, Caribe, África Subsaariana e Sudoeste Asiático não conseguiram reduzir pela metade sua população com fome.
O QUE acontece com a comida produzida
            A produção mundial de alimentos é largamente superior à demanda, mas acaba sendo, em grande parte, desperdiçada. O gráfico abaixo mostra como o crescimento da produção calórica mundial cresceu nas últimas duas décadas, atingindo a marca de 123% da necessidade per capita atual.
PRODUÇÃO

        Contudo, de acordo com a FAO, um terço de toda a comida produzida anualmente (em torno de 1,3 bilhões de toneladas) não é consumida. De tudo o que é jogado fora, apenas 25% já seria suficiente para abastecer a população com fome.
Duas formas de a comida ir para o lixo
PERDA
Comida que acaba indo para o lixo antes de chegar ao consumidor final. Muitas vezes, ela nem chega ao fim do processo de produção, apodrecendo antes. As perdas sempre ocorrem sem intenção.
DESPERDÍCIO
São os casos em que a comida passou por todo o processo de produção em condições perfeitas para consumo, mas acabou sendo jogada no lixo, por vendedores ou consumidores.
A quantidade de comida não consumida é parecida entre os países desenvolvidos e as regiões em desenvolvimento. Nos países ricos, 670 milhões de toneladas vão para o lixo anualmente, enquanto nos países mais pobres, essa quantidade é de 630 milhões. Deve ser levado em consideração, contudo, que a população dos países em desenvolvimento é bem maior.
Se o calculo for feito per capita, a diferença é latente: segundo a FAO, europeus e norte-americanos jogam, por pessoa, de 95 a 115 quilos de comida no lixo todo ano. Na África subsaariana e no Sul e Sudeste Asiático, a média por pessoa é de apenas seis a 11 quilos.
A forma como essa comida é descartada também apresenta profundas diferenças. Mais de 40% dos casos nos países ricos entram na categoria de desperdício, ou seja, o alimento estava em perfeitas condições quando foi descartado. Já em países mais pobres, isso acontece em menos de 5% dos casos.
Os números mostram, portanto, que países ricos têm maior tendência a jogar comida fora, mesmo estando em perfeitas condições de uso, e convivem com poucas perdas. Já nos mais pobres ocorre o inverso, muita comida vai pro lixo por problemas ao longo do sistema de produção e transporte, mas as pessoas aproveitam quase todo o alimento que chegam até elas.
COMO VAI PRO LIXO

            Segundo Robert van Otterdijk, oficial da FAO para a Agroindústria, há uma relação clara entre a renda e a atitude de um indivíduo com a comida própria para consumo. Isso afetaria diretamente o acesso das populações mais pobres à produção alimentícia.
Segundo as Nações Unidas, o primeiro passo para evitar o desperdício é que as pessoas reduzam o consumo, ou seja, comprem apenas o que for necessário para uma dieta saudável. Depois, reutilizem o alimento que ainda tem condições de consumo, o que serve tanto para compradores quanto vendedores, que descartam alimentos consumíveis por apresentarem aparência física pouco atrativa. Além disso, a reciclagem - como a utilização de alimentos para animais - e a otimização da utilização do solo são outros pontos que precisam ser trabalhados.
US$750 bilhões é o valor de produção da comida não aproveitada anualmente
US$1 trilhão é o valor em preços de mercado - equivalente a duas vezes o PIB da Noruega
QUEM são os mais atingidos pela fome

            A fome atinge principalmente as populações mais pobres, já que está relacionada às desigualdades econômicas e sociais nas mais diferentes escalas - de global a regional. Entre a população com fome, contudo, as crianças constituem um grupo ainda mais vulnerável.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 11% das crianças com menos de 5 anos em todo o mundo estão abaixo do peso ideal. Como reflexo, 66 milhões delas vão à escola com fome, sendo que 23 milhões estão na África. Além disso, outras 67 milhões de criançasem idade escolar não frequentam as aulas, reflexo da pobreza familiar, que as força a trabalhar para ajudar na renda de casa.
A situação das crianças é, em parte, decorrência do que ocorre com suas mães: 60% da população mundial que sofre com a fome é mulher. Apesar de representarem 43% da mão de obra rural mundial, as mulheres têm acesso restrito ao controle de terras e animais em todas as regiões do mundo. Não conseguem acesso a sementes melhores e fertilizantes, além de encontrarem muito mais dificuldades em conseguir financiamentos para suas lavouras. 
O machismo na produção agropecuária faz com que a produção feminina seja, em média, 25% menor do que a masculina.
Como reflexo desse quadro, aproximadamente metade das mulheres grávidas de países em desenvolvimento apresentam anemia, gerando 110 mil mortes durante o parto todos os anos. Além disso, bebês que nascem abaixo do peso são 20% mais suscetíveis a falecerem antes dos 5 anos, segundo a WFP, instituição internacional para combate à fome ligada à ONU.
Haiti, Zâmbia, República da África Central, Namíbia e Coreia do Norte são os países proporcionalmente mais atingidos pelo problema, com mais de 35% de suas populações com fome. O Sudoeste Asiático e a África Subsaariana são as regiões do planeta com a maior população com subnutrição crônica, somando juntas aproximadamente 500 milhões de pessoas. 

POR QUE as políticas não funcionaram e precisaram mudar
            As políticas de combate à fome, adotadas até aproximadamente o início da década, focaram sobretudo na ajuda emergencial e no aumento da produção. Ou seja, acreditava-se que para acabar com a subnutrição, bastava, primordialmente, produzir mais e levar comida a populações com fome.
Depois que as metas traçadas não foram alcançadas, organizações que lidam com o tema entenderam que era necessário criar ações permanentes e estruturais. Surgiram então dois aspectos principais.
Um trata do principal motivo: a pobreza. A comida não chega a quem precisa porque, na maioria dos casos, as pessoas não têm dinheiro para comprá-la. Seja nos países mais pobres ou nos mais ricos, pessoas têm dificuldades em conseguir alimentos por serem economicamente excluídas, e não porque não tem comida suficiente.
Uma criança que vive numa favela do Rio de Janeiro, por exemplo, está mais suscetível a passar fome e conviver com a insegurança alimentar do que uma outra criança que mora em um condomínio de luxo, a três quarteirões de distância. Se a comida chega pra uma, também chega pra outra. A diferença é que uma pode comprá-la, mas a outra não.
O outro aspecto tem a ver com a forma de desenhar políticas em escala global. É a territorialidade. Isso significa que as organizações entenderam que o combate à fome tem que ser feito levando em conta questões específicas de cada lugar. Pessoas em cidades não passam fome pelos mesmos motivos que pessoas do campo.
A primeira pode sofrer com falta de acesso a supermercados mais baratos, pois o transporte público é ineficiente, por exemplo; a outra, porque não tem acesso a grãos para plantar para sua família, ou porque os animais que cria não ganham peso. As políticas, para cada um desses casos, tem que ser diferente: transporte público de qualidade e incentivos a redes de supermercados mais acessíveis na cidade, e distribuição de grãos e programas de educação agropecuária para a população rural.

NO BRASIL: o que foi feito para sairmos do mapa da fome
       No ano de 2014 o Brasil saiu, pela primeira vez, do mapa da fome divulgado pela FAO. O avanço, segundo as Nações Unidas, foi resultado de uma ação coordenada que agiu em diversas esferas da realidade social posta.
“A visão da FAO é de que uma ampla gama de medidas integradas são necessárias, incluindo ‘proteção social’ e programas de transferência de dinheiro como na linha do Bolsa Família. Como são muitas coisas que devem ser feitas, e elas devem ser coerentes, o elemento mais importante é ‘vontade política no nível mais alto’, ou seja, comprometimento dos governos nacionais” FAO
A ONU destaca a importância de programas sociais como o “Bolsa Família”, sobretudo porque permitiram uma maior integração das mulheres na atividade econômica - no caso do “Bolsa Família”, é a mulher quem recebe o benefício.
A FAO ressalta em seu relatório que “em muitos casos os efeitos positivos do crescimento econômico na segurança alimentar e na nutrição estão relacionados à maior participação feminina na força de trabalho. No Brasil, por exemplo, a participação das mulheres aumentou de 45% em 1990-94 para 60% em 2013”.
A RELAÇÃO ENTRE POBREZA E SUBNUTRIDOS

         José Graziano da Silva, agrônomo, professor brasileiro e um dos principais responsáveis por elaborar o programa “Fome Zero”, implantado em 2003, é Secretário-Geral da FAO desde junho de 2011.
Em uma publicação organizada por Graziano para o Ministério do Desenvolvimento Agrário em 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressalta que o desenvolvimento do “Fome Zero” se deu pelo Instituto Cidadania ao lado de “ONGs, institutos de pesquisas, sindicatos, organizações populares, movimentos sociais e especialistas ligados à questão da segurança alimentar de todo o Brasil”, conforme recomendam as organizações internacionais.
O esquema de organização das políticas de combate à miséria se deu em três níveis: estruturais, específicas e locais. Segundo relatório do Banco Mundial, o número de brasileiros vivendo com menos de U$ 2,5 dólares (cerca de R$ 8) por dia caiu de 10% para 4% entre 2001 e 2013.
Estratégia para vencer a fome no Brasil
POLÍTICAS ESTRUTURAIS
As políticas estruturais estão relacionadas a ações mais dispersas, com o objetivo de melhorar a política social como um todo do país e diminuir a desigualdade econômica. Fazem parte disso políticas de geração de emprego, reforma agrária, políticas de incentivo à agricultura familiar, uma previdência social universal e programas de transferência de renda, como o “Bolsa Família”.
POLÍTICAS ESPECÍFICAS
São aquelas destinadas diretamente a assuntos relacionados à garantia de que as pessoas terão comida, mas ainda são políticas gerais, levadas a todas as regiões do país nos mesmos moldes. Fazem parte das políticas específicas ações como doação de cestas básicas emergenciais, manutenção de estoques emergenciais de comida, educação de consumo de alimentos, ampliação de merenda escolar, entre outros.
POLÍTICAS LOCAIS

São as políticas desenhadas de maneiras diferentes para ambientes e populações diferentes. É o tipo inverso das políticas “de baixo para cima” citadas anteriormente como o modelo desaconselhado pelas organizações internacionais. A diferenciação se deu entre áreas rurais, áreas urbanas pequenas ou médias, e metrópoles, com ações desenhadas para cada um desses tipos de organização social.
FONTE: Nexo

domingo, 9 de outubro de 2016

REAPROXIMAÇÃO ENTRE CUBA E ESTADOS UNIDOS

O dia 17 de dezembro de 2014, os Estados Unidos da América (EUA) e Cuba tornaram públicas suas intenções de reaproximação diplomática. O anúncio desse começo de abertura de relações políticas entre os dois países veio acompanhado de negociações para libertação do americano Alan Gross, em Cuba, bem como a libertação de três cubanos na Flórida (EUA), acusados de espionagem. Tanto o líder cubano, Raúl Castro, como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, discursaram sobre o fato da libertação desses indivíduos e assinalaram a perspectiva de uma nova fase entre os dois países.
Esse acontecimento tem uma relevância notória (e, por isso mesmo, vem sendo amplamente noticiado na imprensa internacional) exatamente por terem sido publicamente declaradas as intenções de reaproximação. Contudo, a história da relação entre Cuba e EUA, desde os anos 1960 até agora, é marcada por várias contradições, tanto de um lado quanto de outro. As contradições começam logo com as investidas revolucionárias do grupo liderado por Fidel Castro, na década de 1950, contra o governo de Fulgêncio Baptista. Há já um longo debate historiográfico que esmiúça, nesse contexto, a participação dos EUA tanto em apoio às forças de Baptista quanto em eventuais auxílios aos guerrilheiros.
Ademais, no contexto da Guerra Fria, a Revolução Cubana só representou, de fato, um ícone do comunismo na América Latina quando começou a estreitar relações com a União Soviética no início dos anos de 1960. Até 1959, quando os revolucionários ocuparam Havana e empossaram Manuel Urrutia Lléo presidente — um advogado com tendências ideológicas liberais —, os rumos de uma “Cuba comunista” e de uma “luta contra o imperialismo Ianque” ainda não haviam sido plenamente traçados. Essa perspectiva só se definiu quando os irmãos Castro assumiram de fato o controle da ilha, tanto político quanto econômico e militarmente, optando pelo apoio ao bloco soviético.
Essa opção de Cuba implicava, naturalmente, rechaçar a estrutura econômica americana que havia na ilha há décadas. As “plantations” e os demais investimentos americanos em Cuba foram desapropriados ou expropriados pelo Estado comandado pelos Castro. A institucionalização de uma burocracia gerenciadora do país, estatizante e profundamente dependente da URSS, valendo-se da retórica revolucionária socialista, provocou a reação do bloco ocidental, sobretudo dos EUA, que, a partir de 1961, romperam relações diplomáticas com Cuba após o episódio da invasão da Baía dos Porcos. O momento mais crítico e tenso da Guerra Fria no que se refere à relação EUA-Cuba foi o da Crise dos Mísseis, que pode ser consultado neste link.
Com a queda do bloco soviético em 1989 e as reformas estruturais na Rússia e nos demais países, as relações entre Estados Unidos e Cuba passaram a tomar outro rumo. Cuba foi submetida à pressão de embargos econômicos na forma de duas leis principais: A Lei Torricelli, de 1992, e a Lei Helms-Burton, de 1996. Essas leis dificultavam a articulação econômica de empresas que tinham ou queriam estabelecer negócios em Cuba, já que esse país não contava mais com o auxílio soviético. Além disso, há ainda a posição dos emigrados cubanos que vivem nos EUA. Essa comunidade cubano-americana possui opiniões bastantes diversas e contundentes com relação aos embargos. Enquanto uns apoiam o seu fim, outros defendem a sua manutenção como forma de pressão para a ruína do regime instalado pelos Castro.
A partir dos anos 2000, houve uma maior flexibilidade com relação às parcerias econômicas entre Cuba e diversos outros países, incluindo o Brasil e os EUA. Recentemente, o financiamento do Porto de Mariel em Cuba pelo governo brasileiro repercutiu enormemente, sobretudo por conta de acusações em torno da obscuridade na prestação de contas de tal empreendimento. Mas o fato é que Cuba tem buscado manter-se “de pé” politicamente, segurando a moldura de um regime autoritário, ao mesmo tempo em que se articula economicamente como pode e com quem pode. A renúncia de Fidel Castro trouxe mais uma reviravolta a esse cenário, e seu irmão, que sempre foi considerado mais radical e mais ligado ao núcleo duro das Forças Armadas cubanas, vem demostrando, contraditoriamente, essa perspectiva de abertura. Essa postura talvez seja influenciada por uma articulação política que leva em conta a idade avançada tanto de Fidel quanto do próprio Raúl Castro e dos demais membros da elite dirigente de Cuba. O regime precisará ser reformado nos próximos anos; e ao que tudo indica, Raúl Castro deve estar preparando uma nova elite para isso, como acentua o pesquisador Maurício Santoro, no trecho a seguir:
“Expectativas moderadas e uma clara noção dos limites do possível podem levar à melhoria expressiva das relações entre Estados Unidos e Cuba, abrindo possibilidades positivas para o futuro imprevisível após a morte dos irmãos Castro. A ausência de uma figura pública com legitimidade comparável à dos líderes revolucionários pode criar um perigoso vácuo político, com o risco de disputas violentas pelo poder. Nesse contexto, faz sentido que Washington aposte na construção de vínculos de confiança com altos funcionários do governo cubano, nas esferas diplomática, militar e econômica, que seriam de grande valia num cenário turbulento como esse.” (SANTORO, Maurício. Cuba após a Guerra Fria: mudanças econômicas, nova agenda diplomática e o limitado diálogo com os EUA. Rev. bras. polít. int., Brasília, v. 53, n. 1, July, 2010. p. 138)

Ademais, é preciso ficar atento à situação atual de Cuba, às principais reivindicações da população cubana, aos motivos de haver tanta evasão do país e ao interesse que a comunidade econômica internacional, incluindo o Brasil, tem na ilha. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Possíveis temas de redação para o ENEM 2016

       Alguns assuntos são mais prováveis, devido a sua grande repercussão política ou por fazerem parte das discussões feitas pela sociedade.
A falta de água
Pode ser um possível tema já que este problema faz parte há mais de um ano da vida dos moradores do sudeste e persiste há mais de um século no cotidiano de nordestinos. A prova pode solicitar que o assunto seja discutido sobre esse viés, questionando as políticas de públicas de combate à seca e o comportamento da população para evitar a falta d’água.
A falta de recursos hídricos
É a crise do setor energético que está impactando no aumento da conta de energia e, por consequência, no setor comercial, industrial e na própria residência das pessoas. A prova pode pedir para o estudante relacionar a falta de recursos, as questões políticas nessa crise e a solução para a geração de energia, principalmente, uma energia que impacte menos no meio ambiente.
As manifestações políticas
Que estão acontecendo nas ruas, mas que participaram das redes sociais, como essas ferramentas de comunicação e interação “virtual” estão despertando o interesse político e levando às pessoas as ruas. É interessante falar sobre a potencialidade da ferramenta na comunicação das pessoas, no debate de assuntos e de levar a informação ao público. Também é possível falar sobre a confiabilidade do que passa pelas redes sociais, pois nem sempre as informações são corretas.
A mobilidade urbana
É um problema que afeta vários países no mundo, praticamente todas as cidades grandes, principalmente, do Brasil sofrem com o excesso de carros particulares, poucas linhas de transporte público e falta de incentivo de transportes alternativos, como as bicicletas. A prova pode pedir ao estudante indicar alternativas para melhorar a mobilidade urbana e falar sobre o conflito entre os diferentes públicos que utilizam as vias de trânsito, como o pedestre, o ciclista, o motociclista e o motorista de carro.
Preconceito racial
Que alguns atletas ainda sofrem no meio esportivo, principalmente, em relação às torcidas que, em momentos de fúria, xingam jogadores com palavras preconceituosas, além de qualquer outra forma de preconceito racial, também pode ser um tema da redação do ENEM 2016.
O conceito da família
Deste século, com o objetivo de debater sobre a adoção de crianças por casais homossexuais e sobre a nova norma na guarda compartilhada de crianças, quando os pais se divorciam.
Dengue, Zica e Chikungunya
O tema pode pedir para falar dos novos casos das doenças, das campanhas de combate e sobre a conscientização da população. Os crescentes casos de microcefalia, que ainda não tem sua ligação comprovada com a transmissão do mosquito aedes aegypti.
As campanhas de vacinação
Principalmente contra o Sarampo e o HPV, para meninas de até 13 anos de idade. Um assunto batido, mas que o estudante deve estar sempre preparado é sobre os problemas no Sistema Único de Saúde (SUS) como falta de médicos, atrasos, grandes filas de espera e falta de equipamentos, além do Programa Mais Médicos.
O limite da estética e da saúde
Também é um bom assunto. Até onde o ser humano pode ir para atingir a sua exigência em relação à beleza. O busca pelo corpo perfeito, com dietas, cirurgias plásticas e produtos, tem limite? 
A sustentabilidade de empresas e o aquecimento global
São assuntos comuns nessa área. Mas, no Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos é um tema que agora está sendo muito debatido nos municípios do país. Então é importante saber sobre o que é essa política, o dever dos governos municipais e como a população pode cobrar a coleta seletiva.
Intolerância religiosa
O ataque à revista Charlie Habdo pode exemplificar o tema. Mas muito mais do que um caso isolado, a intolerância religiosa é grande tanto no Brasil como em outros países. Ao debater esse tema, precisamos lembrar da laicidade do Estado e do respeito aos diferentes tipos de crenças e rituais religiosos, podendo destacar, no caso do Brasil, o grande preconceito existente com religiões de origem africana.
Justiça com as próprias mãos
Tema bastante polêmico em 2014 e que pode ser discutido com mais imparcialidade esse ano. O combate à violência através da justiça com as próprias mãos é válido? Definições de justiça, casos de linchamentos, rebeldia com a ordem e segurança públicas são alguns pontos que abordam essa temática.

Consumo de álcool e droga por adolescentes

Por lei, o consumo de álcool é proibido por adolescentes. Entretanto, é crescente o uso não só de bebidas alcoólicas mas também de drogas lícitas e/ou ilícitas entre os jovens, como cigarro, maconha, cocaína, LSD etc. As razões e consequências desse ato podem servir como base para a discussão do tema.

Limites entre humor e bullying

Os limites do humor é algo que tem chamado bastante atenção atualmente por causa de diversos processos a comediantes do Brasil como Rafinha Bastos, Danilo Gentili etc, e o constante uso de discriminação das minorias para fazer piada. A responsabilidade social do comediante foi discutida no excelente documentário de Pedro Arantes, “O riso dos outros”, encontrado no Youtube.
(www.horadoenem.org/)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

IMPACTO AMBIENTAL DE MARIANA MG

No dia 05 de novembro de 2015, o Brasil presenciou o maior acidente da História com rejeitos de mineração. O material liberado, além de destruir completamente o distrito de Bento Rodrigues, avançou por outras regiões do município de Mariana, Minas Gerais, deixando por onde passava um rastro de prejuízos materiais e ambientais, sem contar as perdas humanas.
→ O acidente
A barragem de Fundão da mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, rompeu-se no dia 05 de novembro de 2015 e liberou cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. Inicialmente, acreditava-se que duas barragens haviam se rompido, entretanto, a mineradora desmentiu o fato dias após o acidente e explicou que o rompimento de Fundão fez com que a barragem de Santarém transbordasse.
A lama liberada, que, segundo a Samarco, é formada apenas por óxido de ferro, água e areia, destruiu uma grande área, desabrigando centenas de pessoas, principalmente no distrito de Bento Rodrigues. Os rejeitos, além dos danos materiais, provocaram um grande desastre natural que pode afetar o meio ambiente por décadas.
→ Impactos ambientais
Apesar de, segundo a mineradora Samarco, a lama não ser tóxica, os efeitos dos rejeitos no meio ambiente são extremamente graves, principalmente em razão da quantidade de material liberada. De acordo com o Ibama, a quantidade de rejeitos seria capaz de encher mais de 20 mil piscinas olímpicas.
O primeiro impacto causado pela lama foi observado nos municípios atingidos, que foram parcialmente cobertos. Essa cobertura, quando secar, pavimentará o local, formando uma espécie de capa de cimento, onde nada cresce. Além disso, o material possui pouca matéria orgânica, o que dificultará o surgimento de uma nova vegetação. Nesse local, será impossível, por exemplo, o desenvolvimento de agricultura. Podem ocorrer ainda desestruturação química do solo e alteração do pH.
Vale frisar que a grande quantidade de lama demorará anos para secar completamente e, enquanto isso, nada poderá ser construído ali. Sem resistência para a construção de casas e sem formas de desenvolvimento de vida, a área tornou-se completamente inabitável.
A lama também atingiu os rios da região, começando pelo Rio Gualaxo, atingindo o rio Carmo, até chegar ao Rio Doce, responsável pelo abastecimento de vários municípios. Ao atingir os rios, a lama tornou a água imprópria para o consumo humano e para a sobrevivência de várias espécies.

Os rios atingidos tiveram grande perda em biodiversidade. Após o acidente, os peixes, por exemplo, tiveram suas brânquias obstruídas pela lama, morrendo em consequência da falta de oxigênio. Além de peixes, outras espécies morreram, tanto macroscópicas quanto microscópicas, o que significa que, em alguns pontos dos rios atingidos, todo o ecossistema aquático foi destruído. Segundo alguns biólogos, o rio Doce, por exemplo, precisará de 10 anos para se recuperar do dano causado pelo acidente.
É importante salientar que os rios foram afetados também de outras formas. Além da morte trágica da vida aquática, a lama pode provocar assoreamento de rios, desvio de cursos de água, diminuição da profundidade e soterramento de nascentes. A mata ciliar ao redor dos rios também foi completamente destruída. Com a passagem dos resíduos, muitas árvores foram arrancadas e algumas espécies vegetais foram completamente soterradas pela lama.
Como toda a lama que está no rio Doce chegará ao mar, no Espírito Santo, os rejeitos podem prejudicar também a vida marinha. Estima-se que os efeitos sejam sentidos em pelo menos três áreas de conservação marinha, como os recifes de corais de Abrolhos, que se destaca pela grande biodiversidade.
→ Como o acidente em Mariana pode ser cobrado em provas?
Estão cada vez mais comuns em provas de Enem e vestibulares questões sobre o meio ambiente, sendo amplamente cobrados os impactos ambientais decorrentes do desenvolvimento humano. Assim sendo, é importante entender os problemas gerados pela falta de fiscalização de grandes obras, a falta de planejamento em caso de acidentes, os efeitos negativos desses acidentes para o meio ambiente e quais medidas podem ser tomadas para reverter, mesmo que parcialmente, a situação.

No caso de Mariana (MG), é importante entender como esse acidente afetou diferentes ecossistemas e que todas as nossas ações causam impactos não somente locais. Entre os pontos que merecem destaque, podem ser citados os efeitos dos rejeitos na cadeia alimentar e os problemas desencadeados pelo assoreamento de rios e soterramento de nascentes.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

O brexit, a geopolítica e a amizade com direito a rusgas.

O 'brexit' é uma bofetada espetacular nos caciques de Bruxelas, a primeira fatura que a União Europeia pagará.
Causas imediatas e a vingança da democracia
Nos últimos dias, os especialistas vêm se dedicando a enumerar as principais causas do brexit. Coincidem em muitos argumentos, como o de apontar a deterioração do Estado de bem-estar devido aos ajustes econômicos, o desemprego e a precarização do trabalho, a crescente desigualdade social e territorial… A nostalgia dos mais velhos pela época imperial e o desinteresse dos jovens pelo voto também foram fatores.

Com relação à questão dos estrangeiros, são propostas diferentes e divergentes interpretações. Alguns remetem ao racismo e “aos nacionalismos de sempre, excludentes e chauvinistas, que desenham sociedades fechadas e empobrecidas moralmente” (editorial do El País, em 3 de julho). Para outros, o assunto é mais complexo. Manuel Castells, em artigo para o La Vanguardia (em 2 de julho) opina que “em contraste com as acusações de racismo, a crítica não foi contra oriundos do chamado Terceiro Mundo, pois elas estão sujeitas aos vistos”, mas sim contra a imigração que vem do leste da Europa, porque entra “sem controle e compete legalmente pelos postos de trabalho, pelas vagas nos hospitais e na educação, entre outros serviços públicos gratuitos, além da moradia e o seguro-desemprego”. O tema afeta menos a capital Londres, e mais as outras regiões industriais, agora envelhecidas e em plena depressão. Não se trata, portanto, de um nacionalismo étnico, mas de uma resistência diante da globalização e da perda de controle do país, e aquilo que se chama populismo seria, na verdade, “uma defesa da vida que resta”. As duas premissas podem ser certas, mas talvez uma mais que a outra.
Se incluímos nessa reflexão a recente crise dos refugiados que fogem das guerras, alimentadas pelos próprios poderes ocidentais, e os efeitos colaterais do terrorismo nascido das políticas insensatas na Palestina, no Afeganistão, na Líbia, no Iraque, na Síria… E se incluímos também a rejeição às elites da União Européia, que defenderam as medidas para combater a crise financeira que logo cumprirá dez anos vigente, teremos um retrato bom o suficiente para fazer um inventário das causas imediatas da desilusão dos ingleses e do brexit. Em suma, foi um voto de idade, de classe e territorial. Me permito sugerir a hipótese de um voto religioso: os católicos apoiaram a permanência e os anglicanos a saída.
Em qualquer caso, foi a vingança da democracia, do voto das pessoas “comuns”, contra a frieza tecnocrata das elites. A imagem do ex-presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, cruzando as portas giratórias da sede do Goldman Sachs (que muitos consideram a entidade financeira mais influente no mundo atual), onde ganha cinco milhões de euros por ano, sem renunciar à sua pensão “europeia” de 18 mil euros mensais pelo cargo que tinha no organismo, podemos entender melhor o assunto. “Nas mãos de quem nós estamos?” – esta é a pergunta que todos nos fazemos.
 Alguém resumiu com poucas palavras o estilo dos que governam a Europa: “tudo para o povo, mas sem o povo”. O “brexit” é uma bofetada espetacular nos caciques de Bruxelas, a primeira fatura que a União Européia pagará. O projeto descarrilhará se seus líderes se empenharem em continuar impulsando um europeísmo ilustrado paternalista, que não tem lugar no Século XXI, com a democracia como única fonte legítima de fazer política. Atentos ao futuro.
O brexit é uma vingança da geografia ou a verdadeira razão geopolítica
 
Três semanas depois, as bolsas se recuperaram da momentânea queda pós-brexit. Tudo volta ao normal, talvez porque, geopoliticamente, o brexit é o normal…
 
Um conhecido ensaísta geopolítico, Robert Kaplan escreveu uma obra chamada “A vingança da geografia”, onde nos diz que a geografia é o pano fundo sobre o qual transcorre a História. Porém, por que relacionar esta sentença com o Reino Unido? Será que existe algo mais por trás do brexit?
Inglaterra há mil e cem anos, objeto de desejo e cobiça continentais
A Inglaterra, ou o território que hoje conhecemos como tal, se vinculou à Europa continental com a conquista romana – iniciada por Júlio César, em meados do Século I a.C., e concluída uma centena de anos depois, por Cláudio. Esta etapa de criação dos laços se encerrou por volta do Século V, quando novas e sucessivas invasões foram sendo construídas, a partir do substrato anterior celta-brítano-romano, um conglomerado social dominado primeiro pelos anglo-saxões, logo pelos vikings dinamarqueses, e finalmente pelos normandos – após a batalha de Hastings, em 1066. Em números redondos, durante mil e cem anos, a Inglaterra e os demais povos britânicos foram invadidos uma e outra vez por grupos humanos procedentes do continente.
 
Quatro séculos para cimentar a rivalidade anglo-francesa e quinhentos anos de estratégia extracontinental
A conquista por parte dos normandos supõe uma inflexão histórica. A Inglaterra passou de ser terra de conquista por parte de povos e elites continentais a se constituir um poder com interesses territoriais, feudais e dinásticos na França, no continente. Durante quatrocentos anos, a herança francesa dos normandos e as políticas matrimoniais foram o fruto da discórdia entre uns e outros.
A história moderna inglesa começa com sua derrota (em 1453) na Guerra dos Cem Anos, contra a França, que implicou em sua renúncia a seguir disputando a corona francesa com a dinastia dos Valois, além da perda de suas posses territoriais no continente. Desta forma, seus interesses diretos no continente foram se extinguindo, e ainda mais após os conflitos dinásticos que colocar as casas de Lancaster e York em conflito durante os últimos 50 anos daquele Século XV. A França, por sua vez, transforou Joana d´Arc (a arqui inimiga dos ingleses) primeiro em heroína, depois em santa, e na Padroeira da Nação (não sem antes passar pela fogueira com a cumplicidade de notáveis e eclesiásticos do país). Desde então, a estratégia da Inglaterra seria a de descansar a reorganizar o contragolpe insular com respeito à Europa, sem renunciar à influência de sempre para impedir ou dificultar o cenário em que uma potência possa chegar a acumular tanto poder para dominar o continente. De forma complementária, o desenho exigia a consolidação do predomínio nas ilhas britânicas (conquista da Irlanda, controle da Escócia) e a busca do seu destino em ultramar – aproveitando os oceanos abertos diante das costas ocidentais –, com um poderoso império marítimo.
 
Enrique VIII cimentou as bases desta política britânica, de costas para o continente e protegida atrás do Canal da Mancha e do Mar do Norte. Assim, de pode entender, entre outras cosas, a ruptura com as autoridades eclesiásticas de Roma e a criação de uma igreja nacional inglesa (em 1534) – o que parecia um desafio de grande envergadura e à pretensão de unidade religiosa e política, com uma única Igreja (a Romana) e um só imperador (fossem eles reis “católicos”, como os hispânicos, “cristianíssimos”, como os monarcas franceses, imperadores do Sacro Império Romano-Germânico ou imperadores novíssimos como Napoleão…). Dessa forma foram forjadas a identidade nacional inglesa e a construção institucional do Reino Unido. Durante quinhentos anos, não houve mais invasões. Pelo contrário, o sentido dos movimentos se inverteu. Os britânicos se expandiram por todo o planeta com seus exércitos, seus negócios e seus imigrantes colonizadores.
A Inglaterra, entre os séculos XVI e XIX, quando não está guerra contra a Áustria, está contra a França, ou contra ambas ao mesmo tempo. As duas conflagrações mundiais da Primeira metade do Século XX modificaram sua política de alianças, quando o inimigo a vencer são os “impérios” germânicos e a França é um sócio inevitável, e cada vez menos poderoso. Sempre “controlando” o que sucede no continente…
A temida – e derrotada – invasão da Invencível Armada, em1588, funciona como metáfora dos medos da sociedade britânica. A intentona fracassada dos alemães em 1941 também foi atualizada no imaginário popular, com o brexit coincidindo com uma visão do poder reitor alemão sobre a União Europeia, e com uma França progressivamente mais impotente.
O princípio e o final de uma amizade com direito a rusgas
Quando foi assinado o Tratado de Roma, em 25 de março de 1957, criando-se assim a Comunidade Econômica Europeia, o Reino Unido ainda era um poderoso e orgulhoso império. Havia perdido a “joia” hindu há pouco tempo, entre outras colônias importantes, mas a bandeira da Union Jack seguia flamulando em todos os continentes.
 Somente em 1963, quando era governado pelo conservador Harold Macmillan, o Reino Unido solicitou sua entrada no clube europeu. Seu império estava se desvanecendo: em 1960, se independizaram Nigéria, Camarões e Chipre, no ano seguinte foi a vez de Serra Leoa e Tanganica (atual Tanzânia), Uganda em 1962, Quênia e Zanzibar (hoje parte da Tanzânia) em 1963… Mas a França de De Gaulle vetou sua incorporação.
 
Em 1967, quando o primeiro-ministro era o trabalhista Harold Wilson, o Reino Unido insistiu em ver como De Gaulle rechaçava de novo a sua petição. Assim, continuaram perdendo colônias – Malta e Zâmbia em 1964, Gâmbia em 1965…
Por fim, em 1 de janeiro de 1973, o conservador Edward Heath conseguiu ratificar o ingresso do país no bloco. O referendo de 1975, para conhecer a opinião dos cidadãos sobre o tema, teve como resultado um 67% de votos afirmativos. É claro que os britânicos já aplicavam, naquele então, um padrão democrático para resolver suas grandes questões internas. A paz assinada na Irlanda do Norte, o referendo escocês e a consulta do brexit são provas renovadas disso.
Quando o Tratado de Maastrich (1992) modifica a CEE, que passa a se chamar simplesmente Comunidade Europeia, e logo, no ano seguinte, se torna União Europeia, o Reino Unido já havia perdido o seu império colonial quase todo, mas soube criar uma nova figura em seu lugar, a Comunidade de Nações (a Commonwealth), para manter, com ela, uma notável influência econômica e política, com sua monarca mantendo essa posição sobre muitas das nações independizadas – como a Austrália, o Canadá e a Nova Zelândia… É o grande trunfo que o Reino Unido possui agora, além das suas excepcionais relações com os Estados Unidos.
Os britânicos pensavam que seriam muito felizes na Europa dos mercadores, que tanta prosperidade anunciava. Mas esta se converteu numa união política, contraditória com os quinhentos anos mais importantes de sua história. Quando a amizade com “direito a rusgas” e sem excessivos compromissos (o Mercado Comum) se tornou um projeto matrimonial cada vez mais irreversível, se ativaram os alarmes, e a geografia e a história pediram a palavra.
Os resultados do referendo eram para validar se prevalecia a geopolítica do longo período entre 1453 e 1975 (sua história sobre o pano de fundo da brecha defensiva do Canal da Mancha e do Mar do Norte) ou o tímido golpe de timão dos últimos 41 anos, que impulsava o Reino Unido na direção do continente. Parece que a geografia se vingou e a estrada-túnel foi inundada. O Mar do Norte, o Canal da Mancha e a história de quinhentos anos impuseram sua lógica geopolítica. O sonho da prosperidade crescente se perdeu, e o preço político e social a se pagar para muitos não compensa. Assim, o brexit terminou ganhando.
É inquietante ver que os candidatos mais citados pelos especialistas para emular o caminho tomado pelo Reino Unido sejam França, Holanda e Dinamarca. Todos eles antigos aliados dos britânicos nas duas guerras mundiais. Terá a Alemanha, e outras dimensões geopolíticas européias, algo a ver com o que está acontecendo agora?

Ricardo Romero de Tejada Collado é cientista político e sociólogo. Foi diretor de estudos sociopolíticos e de opinião no Instituto Gallup.
 Tradução: Victor Farinelli