sábado, 26 de abril de 2014

Órgão de saúde da ONU diz que a poluição aérea é “o maior risco ambiental à saúde”

Cidade Chinesa 2014
Um relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde na terça-feira revela que a poluição do ar causou 7 milhões de mortes em 2012, uma em cada oito no planeta. Os dados demonstram um aumento de 100% neste tipo de morte desde a última pesquisa em 2008, com 90% delas ocorrendo em países em desenvolvimento, sendo as regiões do Pacífico do Oeste (que inclui o leste da Ásia e as ilhas Pacíficas) e Sudeste Asiático sendo as mais afetadas.
O órgão de saúde da ONU afirma no relatório que a poluição aérea agora é “o maior risco ambiental à saúde”, causando mortes por doenças cardiovasculares (60% dos casos), câncer do pulmão e obstruções respiratórias crônicas. A diretora do departamento de saúde pública da OMS, Maria Neira, disse na rede norte-americana CNN que “poucos fatores têm um maior impacto na saúde global do que a poluição do ar: as evidências indicam a necessidade de um esforço conjunto para limpar o ar que todos respiramos”.
Em outubro do ano passado, a organização classificou a poluição aérea oficialmente como um fator cancerígeno, colocando-a lado a lado com asbestos, tabaco, e raios ultravioleta como uma das principais causas de câncer.
Em grande parte, essa poluição é criada por emissões industriais e de motores a diesel e gasolina, porém, muito dela vem da queima de carvão e madeira para cozinhas domésticas. A OMS estima que cerca de 3 bilhões de pessoas no mundo ainda usam métodos tradicionais como estes para cozinhar. Na Índia, por exemplo, calcula-se que 63% da população cozinha desta maneira.

O chefe do Grupo de Pesquisas Ambientais do King´s College de Londres, Frank Kelly, afirmou no jornal The Washington Post que é tarefa dos governos diminuir os níveis de poluição por meio de legislações, pela remoção de usinas elétricas e fábricas das grandes cidades, e providenciando alternativas baratas para fogões de carvão e madeira. As pessoas também podem diminuir os riscos a si próprias evitando dirigir na hora do rush e trafegando por ruas menos movimentadas, segundo Kelly.

“A poluição do ar tem causado mais mortes  do que doenças graves, como o HIV e a malária juntas”, afirmou o diretor geral da Organização para o Desenvolvimento Industrial (Unido), Kandeh Yumkella, em uma conferência da ONU ocorrida em Oslo, na Noruega, em abril de 2013.


Os efeitos sobre a saúde são devastadores. Entre os perigos presentes no ar poluído estão as partículas ultrafinas, conhecidas como PM 2,5. Presentes  na fuligem liberada pelos carros. Essas partículas invisíveis podem penetrar nos pulmões e na corrente sanguínea, causando doenças cardíacas, câncer de pulmão, asma e infecções respiratórias. Segundo a OMS, a média da concentração anual dessas partículas no ar deve ser de até 20 microgramas por metro cúbico (µg/m3), níveis considerados seguros.

Desde 2004, o números de pessoas que morrem de doenças relacionadas à poluição vem crescendo. Representantes da ONU acreditam que, até 2030, se os países passarem a investir em energias renováveis, como solar, hidrelétrica e eólica, há possibilidade de o nível de poluição mundial cair pela metade.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Águas e fronteiras na Palestina.

Uma lista de conhecidos obstáculos entravam a solução da chamada Questão Palestina: a definição das fronteiras entre Israel e um futuro Estado palestino, o estatuto político da cidade de Jerusalém, o espinhoso tema dos refugiados palestinos e o destino dos assentamentos de colonos judeus na Cisjordânia. Todavia, negligencia-se a importância das divergências sobre o controle de um recurso natural escasso, que são as águas superficiais e subterrâneas de Israel/Palestina.

A Palestina é a região histórico-geográfica que engloba o Estado de Israel e os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. No conjunto da região, ao longo das últimas décadas, a escassez natural do chamado “ouro azul” tornou-se mais dramática com o crescimento acelerado da população e o consequente incremento da pressão sobre os recursos hídricos.
Praticamente toda a porção meridional da Palestina apresenta climas áridos e semiáridos, e os principais recursos hídricos superficiais são representados pela bacia do Rio Jordão, curso fluvial que tem suas nascentes em território sírio, nas estratégicas Colinas de Golã, área onde convergem as fronteiras de Israel, Síria e Líbano.

Com apenas 251 quilômetros de extensão e uma largura máxima de 30 metros, o Jordão tem sentido geral norte-sul e serve como suporte para um importante trecho da fronteira entre Israel e Jordânia. A bacia do Jordão cobre cerca de um terço da superfície da Cisjordânia. Em seu médio e baixo vale, o rio flui sobre terrenos cujas cotas altimétricas estão abaixo do nível geral dos mares, como é o caso de sua foz no Mar Morto, a maior depressão absoluta do mundo. (veja o mapa 1).


Essa peculiaridade do Jordão se explica pelo fato de ele fazer parte do segmento setentrional do grande Vale do Rift. Formado cerca de 35 milhões de anos atrás, como decorrência da separação das placas Africana e Arábica, o Rift é um complexo de falhas tectônicas que se estende por mais de 5 mil quilômetros entre a Ásia Ocidental e a África Oriental.

O Jordão é um rio de pequeno débito fluvial. As maiores precipitações ocorrem no alto vale, mas não chegam a mil milímetros anuais. Ao longo de seu trajeto, dois locais chamam a atenção: o Mar da Galileia, ou Lago Tiberíades, e o Mar Morto. Atravessado e alimentado pelas águas do Jordão, o Mar da Galileia e suas circunvizinhanças foram, na Antiguidade, cenários bíblicos ligados à vida de Jesus.
De um ponto de vista geopolítico, o Mar da Galileia têm importância vital para Israel, pois de lá é retirada a água que, através do Aqueduto Nacional, abastece grande parte do país. A contínua e volumosa retirada de água, que se verifica desde a década de 1950, tem contribuído para a diminuição do caudal do Jordão a jusante, afetando áreas da Jordânia, da Cisjordânia e do Mar Morto. 
Este mar fechado se destaca por sua grande salinidade, cerca de dez vezes maior que a encontrada nos oceanos. Fruto de uma conturbada história geológica, o mar é abastecido essencialmente pelas águas do Rio Jordão. Até a década de 1950, o fluxo de água que alimentava o Mar Morto se equiparava à taxa de evaporação, mantendo estável o nível das águas. O uso crescente dos recursos hídricos da bacia por Israel – e, em escala bem menor, pela Jordânia e Síria – reduziram drasticamente o fluxo de água do rio que chegava ao Mar Morto.

Juntando-se a isso a poluição e os efeitos de atividades industriais (extração de sal e fosfatos) e turísticas, o mar perdeu cerca de 30% de sua superfície original. Em 1960, o nível da superfície do mar encontrava-se 395 metros abaixo do nível dos mares; hoje, está a 425 metros, e experimentando rebaixamento de um metro por ano. 
Em 2005, Israel, Jordânia e a Autoridade Nacional Palestina formalizaram um acordo de construção de um duto para transferir água do Mar Vermelho, a fim de evitar o total ressecamento do Mar Morto. O projeto, até agora, não evoluiu. Ambientalistas alertam que ele alteraria a química peculiar do mar e sugerem que o ideal seria recuperar as águas do Jordão.

O volume de água renovável da bacia é de aproximadamente 2,4 bilhões de metros cúbicos; sua utilização crescente já atinge a marca de 3 bilhões. Para suprir esse déficit, a saída tem sido retirar água de lençóis freáticos, que não têm capacidade de reposição na mesma velocidade da retirada. As formas de obtenção de água por meios industriais, como a reciclagem e a dessalinização, são caras e insuficientes.
A exploração dos recursos hídricos regionais representa mais um fator nas complexas disputas sobre algumas áreas da bacia, como as Colinas de Golã e a Cisjordânia, territórios ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias (veja o box). No imaginário israelense, a água tem uma dimensão “filosófica”, ligada à ideia do deserto que floresce e que remonta aos primeiros imigrantes na Palestina, no final do século XIX. Israel enxerga as águas do Jordão sob o prisma da segurança nacional e isso representa um enorme obstáculo para a eventual devolução das Colinas de Golã à Síria e da Cisjordânia aos palestinos.
O tesouro subterrâneo da Cisjordânia

As montanhas da Cisjordânia não são muito altas, mas por sua disposição no sentido geral norte-sul, dividem a região em duas áreas pluviométricas. A parte oeste é mais úmida, e a porção oriental, mais seca. São três os principais aquíferos da região: o ocidental, o do norte e o oriental (veja o mapa 2). 


No aquífero ocidental, as águas escoam em direção oeste e são alimentadas por chuvas. Essa região concentra cerca de 90% do volume pluviométrico da Cisjordânia. O aquífero tem uma série de poços que estão do outro lado da linha verde, isto é, da fronteira israelense definida pela ONU após a guerra de 1948-49. Israel tem o controle sobre 80% desses recursos.

Na área do aquífero do norte, existem também poços localizados do outro lado da linha verde, o que permite a Israel captar cerca de 70% do suprimento de água. O aquífero oriental é o de menor volume de água e não participa do abastecimento de água de Israel, mas tem servido para suprir os assentamentos de colonos israelenses que, desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, vêm se expandindo nessa porção da região. Em linhas gerais, Israel tem sob seu controle cerca de 80% dos recursos hídricos da Cisjordânia.
A construção por Israel do muro de segurança na Cisjordânia, a partir de 2002, assestou um golpe complementar na soberania hidráulica dos palestinos. O traçado do muro separou territórios sob administração da Autoridade Nacional Palestina de poços que eram, há muito, utilizados pela população palestina. Hoje, essa população depende da boa vontade das autoridades israelenses para o uso dos antigos poços.

sábado, 5 de abril de 2014

Vala Comum: documentário revela o destino dos mortos pela ditadura no Brasil.



Vala comum é uma cova normalmente localizada em cemitérios onde um conjunto de cadáveres não identificados é enterrado sem nenhuma cerimônia, sem o conhecimento dos familiares e sem nenhum registro oficial. Vala Comum é o titulo do filme que João Godoy realizou em 1994 sobre 1.049 ossadas encontradas em uma cova no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, periferia de São Paulo.
 
Em princípio, seis presos políticos deveriam estar enterrados nessa vala: Denis Antonio Casemiro, Dimas Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, Frederico Eduardo Mayr e Grenaldo de Jesus Silva, mas a exumação mostrou o indício de outros desaparecidos políticos.
 
O documentário de Godoy traz os depoimentos Egle Vannuchi Leme, Felícia Oliveira, Gertrud Mayr, Gilberto Molina e Ivan Seixas. Gilberto é irmão de Flávio Molina, morto em 1971, Ivan é filho de Joaquim Alencar Seixas, que foi preso e torturado junto com o seu pai, e Gertrud é mãe de Frederico Mayr. Já Egle Leme é mãe de Alexandre Vannuchi e Felícia é mãe e Isis Oliveira. Todos assassinados pelo governo militar instalado no Brasil em 31 de março de 1964.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Moralismo capenga.











O combate à corrupção foi palavra de ordem durante a ditadura. Nos porões do regime, porém, a ilegalidade prevaleceu. 

(Heloisa Maria Murgel Starling 23/3/2009)

Combater a corrupção e derrotar o comunismo: esses eram os principais objetivos que fermentavam os discursos nos quartéis, às vésperas do golpe que derrubou o governo João Goulart, em março de 1964. A noção de corrupção dos militares sempre esteve identificada com uma desonestidade específica: o mau trato do dinheiro público. Reduzia-se a furto. Na perspectiva da caserna, corrupção era resultado dos vícios produzidos por uma vida política de baixa qualidade moral e vinha associada, às vésperas do golpe, ao comportamento viciado dos políticos diretamente vinculados ao regime nacional-desenvolvimentista.
Animado por essa lógica, tão logo iniciou seu governo, o marechal Castello Branco (1964-1967) prometeu dar ampla divulgação às provas de corrupção do regime anterior por meio de um livro branco da corrupção – promessa nunca cumprida, certamente porque seria preciso admitir o envolvimento de militares nos episódios relatados. Desde o início o regime militar fracassou no combate à corrupção, o que se deve em grande parte a uma visão estritamente moral da corrupção.
Essa redução do político ao que ele não é – a moral individual, a alternativa salvacionista – definiu o desastre da estratégia de combate à corrupção do regime militar brasileiro, ao mesmo tempo em que determinou o comportamento público de boa parte de seus principais líderes, preocupados em valorizar ao extremo algo chamado de decência pessoal. Os resultados da moralidade privada dos generais foram insignificantes para a vida pública do país. O regime militar conviveu tanto com os corruptos, e com sua disposição de fazer parte do governo, quanto com a face mais exibida da corrupção, que compôs a lista dos grandes escândalos de ladroagem da ditadura. Entre muitos outros estão a operação Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeira no Pará, e os desvios de verba na construção da ponte Rio–Niterói e da Rodovia Transamazônica. Castello Branco descobriu depressa que esconjurar a corrupção era fácil; prender corrupto era outra conversa: “o problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”. A declaração de Castello foi feita meses depois de iniciados os trabalhos da Comissão Geral de Investigações. Projetada logo após o golpe, a CGI conduzia os Inquéritos Policiais-Militares que deveriam identificar o envolvimento dos acusados em atividades de subversão da ordem ou de corrupção. Com jurisdição em todo o território nacional, seus processos obedeciam a rito sumário e seus membros eram recrutados entre os oficiais radicais da Marinha e da Aeronáutica que buscavam utilizar a CGI para construir uma base de poder própria e paralela à Presidência da República.
O Ato Institucional n.º 5, editado em 13 de dezembro de 1968, deu início ao período mais violento e repressivo do regime ditatorial brasileiro – e, de quebra, ampliou o alcance dos mecanismos instituídos pelos militares para defender a moralidade pública. Uma nova CGI foi gerada no âmbito do Ministério da Justiça com a tarefa de realizar investigações e abrir inquéritos para fazer cumprir o estabelecido pelo Artigo 8º. do AI-5, em que o presidente da República passava a poder confiscar bens de “todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública”.
Para agir contra a corrupção e dar conta da moralidade pública, os militares trabalharam tanto com a natureza ditatorial do regime como com a vantagem fornecida pela legislação punitiva. Deu em nada. Desde 1968 até 1978, quando foi extinta pelo general Geisel, a CGI mancou das duas pernas. Seus integrantes alimentaram a arrogante certeza de que podiam impedir qualquer forma de rapinagem do dinheiro público, através da mera intimidação, convocando os cidadãos tidos como larápios potenciais para esclarecimentos.
A CGI atribuiu-se ainda a megalomaníaca tarefa de transformar o combate à corrupção numa rede nacional, atuando ao mesmo tempo como um tribunal administrativo especial e como uma agência de investigação e informação. Acabou submergindo na própria mediocridade, enredada em uma área de atuação muito ampla que incluía investigar, por exemplo, o atraso dos salários das professoras municipais de São José do Mipibu, no Rio Grande do Norte; a compra de adubo superfaturado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais e as acusações de irregularidades na Federação Baiana de Futebol. Entre 1968 e 1973 os integrantes da comissão produziram cerca de 1.153 processos. Desse conjunto, mil foram arquivados; 58 transformados em propostas de confisco de bens por enriquecimento ilícito, e 41 foram alvo de decreto presidencial.
Mas o fracasso do combate à corrupção não deve ser creditado exclusivamente aos desacertos da Comissão Geral de Investigações ou à recusa de membros da nova ordem política em pagar o preço da moralidade pública. A corrupção não poupou a ditadura militar brasileira porque estava representada na própria natureza desse regime. Estava inscrita em sua estrutura de poder e no princípio de funcionamento de seu governo. Numa ditadura onde a lei degradou em arbítrio e o corpo político foi esvaziado de seu significado público, não cabia regra capaz de impedir a desmedida: havia privilégios, apropriação privada do que seria o bem público, impunidade e excessos.
A corrupção se inscreve na natureza do regime militar também na sua associação com a tortura – o máximo de corrupção de nossa natureza humana. A prática da tortura política não foi fruto das ações incidentais de personalidades desequilibradas, e nessa constatação reside o escândalo e a dor. A existência da tortura não surgiu na história desse regime nem como algo que escapou ao controle, nem como efeito não controlado de uma guerra que se desenrolou apenas nos porões da ditadura, em momentos restritos.
Ao se materializar sob a forma de política de Estado durante a ditadura, em especial entre 1969 e 1977, a tortura se tornou inseparável da corrupção. Uma se sustentava na outra. O regime militar elevou o torturador à condição de intocável: promoções convencionais, gratificações salariais e até recompensa pública foram garantidas aos integrantes do aparelho de repressão política. Caso exemplar: a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979).  A corrupção garantiu a passagem da tortura quando esta precisou transbordar para outras áreas da atividade pública, de modo a obter cumplicidade e legitimar seus resultados. Para a tortura funcionar é preciso que na máquina judiciária existam aqueles que reconheçam como legais e verossímeis processos absurdos, confissões renegadas, laudos periciais mentirosos. Também é necessário encontrar gente disposta a fraudar autópsias, autos de corpo de delito e a receber presos marcados pela violência física. É preciso, ainda, descobrir empresários dispostos a fornecer dotações extra-orçamentárias para que a máquina de repressão política funcione com maior precisão e eficácia.
A corrupção quebra o princípio da confiança, o elo que permite ao cidadão se associar para interferir na vida de seu país, e ainda degrada o sentido do público. Por conta disso, nas ditaduras, a corrupção tem funcionalidade: serve para garantir a dissipação da vida pública. Nas democracias – e diante da República – seu efeito é outro: serve para dissolver os princípios políticos que sustentam as condições para o exercício da virtude do cidadão. O regime militar brasileiro fracassou no combate à corrupção por uma razão simples – só há um remédio contra a corrupção: mais democracia.

Heloisa Maria Murgel Starling é professora de História da Universidade Federal de Minas Gerais e co-autora de Corrupção: ensaios e críticas (Editora da UFMG, 2008).

Saiba Mais - Bibliografia:
FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GASPARI, Elio. Coleção As Ilusões Armadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

RIBEIRO, Renato Janine. A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O OCEANO ÍNDICO E SUA IMPORTÂNCIA ECONÔMICA E ESTRATÉGICA.

Com extensão bem inferior à dos oceanos Pacífico e Atlântico, o Índico banha cerca de 40 países que se localizam entre a costa leste da África e o litoral ocidental da Austrália. Ao sul, seu limite é o paralelo 60º S, desde o cabo das Agulhas (África do Sul), até a ilha da Tasmânia (Austrália). Em virtude de seus recortes litorâneos, existem no Índico estreitos de grande importância estratégica como os de Bab-el-Mandeb, Ormuz e Malaca, além de inúmeros arquipélagos e penínsulas. (fonte O Mundo)


Algumas das primeiras civilizações do mundo como as da Mesopotâmia, do Antigo Egito e do subcontinente indiano que surgiram ao longo de vales fluviais como os do Tigre, Eufrates, Nilo e Indo desenvolveram-se próximas do litoral do Índico. Nas primeiras décadas do século XV, o almirante Zheng He liderou frotas de navios do então Império da China em várias viagens pelo Oceano Ocidental, como os chineses denominavam o Índico. Ao final daquele século, quando Vasco da Gama contornou o Cabo da Boa Esperança, os europeus se fizeram cada vez mais presentes na região.
 Num primeiro momento, Portugal esteve à frente, construindo pontos fortificados nos estreitos e portos mais importantes. Mas, rapidamente, o país foi perdendo espaço a Holanda, França e Grã Bretanha. No século XIX, esta última se transformou na potência dominante da região, especialmente após a abertura do Canal de Suez (1869).
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos substituíram a Grã Bretanha, quase ao mesmo tempo em que a União Soviética desenvolveu a estratégia de ampliar sua influência geopolítica junto a países da região. Esse choque de interesses levou as duas superpotências se envolveram, direta e indiretamente, em todos os conflitos que ocorreram na região que bordeja o Índico durante a Guerra Fria, como no Sudeste Asiático (Indochina), Oriente Médio, Afeganistão e África Austral.
Atualmente, três países - EUA, Índia e China - possuem grandes interesses geopolíticos na região. Como única potência verdadeiramente global, os EUA estão ali presentes através de bases militares e facilidades oferecidas por países aliados. A presença do país se ampliou a partir de 2001, em decorrência das ações no Afeganistão.
O ponto mais importante do país na área é a base de Diego Garcia, situada a meio caminho entre a África e a Indonésia. Com apenas 44 km2 de extensão, o atol em que se situa se tornou território britânico no século XIX. Na década de 1960, o governo britânico firmou um acordo com os EUA transformando a ilha em base militar. Para que ela fosse construída, cerca de dois mil habitantes da ilha foram transferidos compulsoriamente para as ilhas Maurício.

Com mais de sete mil km de linha costeira, a Índia é o único dos três países que possui litoral no Índico. Sua vasta e rica Zona Econômica Exclusiva exige constante vigilância, especialmente porque o país vê com preocupação o aumento da presença chinesa na área. A Índia julga fundamental tornar seguras suas rotas marítimas e, por isso, mostra grande interesse de cooperação com os governos das ilhas Seychelles e Maurício para dispor de facilidades de escala ou de bases permanentes.
O Índico é de importância crucial para o comércio da China. Por ali transitam cerca de um quarto de suas exportações e 15% das importações. Aproximadamente 75% das importações chinesas de hidrocarbonetos, essenciais para sua segurança energética, circulam por este oceano.

A estratégia de Pequim é de dispor de bases navais e facilidades nesse espaço marítimo. A política da China para o Oceano Índico possui três objetivos maiores: primeiro, fazer frente à multiplicação de atos de pirataria, garantir a segurança de seus navios e, no caso de um conflito, defender seus interesses na área.
O estreito de Malaca se constitui na passagem mais vulnerável. Este estreito, juntamente com o de Singapura, constitui-se numa das principais artérias comerciais do mundo, já que por ali passa o essencial dos fluxos comerciais entre a Europa e Ásia. Nessa região, entre a Malásia, Indonésia e Singapura, agem inúmeros grupos criminosos assaltando os navios. Nos últimos anos houve também grande crescimento de atos de pirataria junto às costas da Somália. A multiplicação de atentados perpetrados por extremistas islâmicos tem reforçado a ideia de ataques suicidas contra petroleiros.
Outra preocupação da China diz respeito à forte presença dos EUA na região. Supondo uma eventual crise entre os dois países, os norte americanos não teriam grandes dificuldades em paralisar o comércio chinês, estrangulando a passagem no estreito de Malaca. Esse sentimento de vulnerabilidade é ainda mais acentuado pelo fato de a China não possuir nenhuma base naval verdadeiramente operacional na região que lhe permita efetuar missões de segurança durante várias semanas. No momento, a estratégia naval de Pequim se apoia principalmente em Mianmar, Bangladesh, Maldivas e Paquistão.
Mianmar ofereceu à China um acesso marítimo ao golfo de Bengala. Em Bangladesh, os chineses obtiveram facilidades navais no porto de Chittagong. Nas ilhas Maldivas, a China poderá construir uma base naval destinada a seus submarinos. Quanto ao Paquistão, o interesse é o porto de Gwadar, cuja construção foi possível graças ao apoio técnico e financeiro de Pequim. Este porto permitiria a ligação terrestre entre o Índico e a região chinesa do Xinjiang-Uigur através do Paquistão, evitando o caminho dos estreitos do Sudeste Asiático

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Número de imigrantes cresceu 86,7% em dez anos no Brasil, diz IBGE.


O Censo Demográfico 2010 registou 286.468 imigrantes que, vindos de outros países, viviam no Brasil há pelo menos cinco anos e em residência fixa. O número foi 86,7% maior do que o encontrado pelo Censo Demográfico 2000, quando foram registrados 143.644 imigrantes na mesma situação. Os dados do Censo Demográfico 2010 foram divulgados nesta sexta-feira (27) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
São Paulo, Paraná e Minas Gerais, juntos, receberam mais da metade dos imigrantes internacionais, seguidas de Rio de Janeiro e Goiás. Os principais países de origem dos imigrantes, segundo o Censo de 2010, são Estados Unidos (51.933), Japão (41.417), Paraguai (24.666), Portugal (21.376) e Bolívia (15.753).
O recorte da pesquisa também mostra dados sobre deficiências, migração, nupcialidade, fecundidade e mortalidade infantil, educação, trabalho, rendimento, tipos de domicílios e deslocamento.
Migração de retorno
O levantamento aponta que os migrantes de retorno, que voltam aos seus estados de origem, somaram mais de 1,1 milhão de pessoas entre 1995 e 2000. No período de 2005 a 2010 foi registrado um total de 1,2 milhão de migrantes. Os estados do Norte tiveram aumento na proporção de retorno, com exceção do Acre, que manteve praticamente no mesmo patamar na taxa de 21% entre 1995 e 2000 e 20% entre 2005 e 2010.
Rondônia passou de 7,4% de 1995 a 2000 para 13,1% entre 2005 e 2010. Roraima registrou 2,1%, entre 1995 e 2000, para 8% entre 2005 e 2010.
Os estados do Nordeste, tanto em 2000 quanto em 2010, apresentaram as maiores proporções de retornados, passando de 40% do total de imigrantes na maioria de seus estados, com exceção do Rio Grande do Norte e Sergipe.
No Sudeste, Minas Gerais e Espírito Santo tiveram redução na proporção de retornados, que permaneceram acima dos 30% em 2000 e em 2010.
Em São Paulo houve aumento de retornados, nos períodos de 1995 a 2000 e de 2005 a 2010, com registro de 9,6% e 18,9% do total de imigrantes, respectivamente. O Rio de Janeiro apresentou uma proporção de retornados de 15,6% e de 20,3%, respectivamente.
No Sul, Paraná e Rio Grande do Sul apresentaram altas proporções de migração de retorno, passando dos 30% nos dois períodos.
No Centro-Oeste foi registrado pelo IBGE o aumento dos retornados em todos os estados, principalmente no Mato Grosso e no Distrito Federal.
Nupcialidade
A proporção de pessoas divorciadas quase dobrou entre 2000 e 2010, passando de 1,7% para 3,1%. Na comparação nacional, Rio de Janeiro (4,1%), Mato Grosso (4,1%) e Distrito Federal (4,2%) apresentam os maiores valores deste indicador. Maranhão tem o menor, com 1,2% de divorciados em 2010.
Os dados separados por estado mostram que, em Rondônia, o número de pessoas que, após um período de união conjugal, já não viviam mais nessa situação aumentou 33%. Em Mato Grosso, o crescimento foi de 31%. O Rio de Janeiro teve índice de 17,5% de pessoas que passaram por dissolução do casamento. Por outro lado, o levantamento identificou redução na proporção de pessoas que nunca se casaram, passando de 38,6% para 35,4%.
Segundo o IBGE, na última década, dados da pesquisa do Registro Civil apontaram um aumento do número de divórcios no país, principalmente a partir de 2007, quando essas medidas puderam ser feitas por vias administrativas nos Tabelionatos de Notas. A partir de 2010 foi possível requerer a dissolução do casamento a qualquer tempo, seja o divórcio de natureza consensual ou litigiosa.
No país, 36,4% das pessoas declararam viver em união consensual em 2010. O número é maior do que o registrado em 2000, quando 28,6% da população estava nesta situação.
Fecundidade e mortalidade infantil
A taxa de fecundidade total no país, de acordo com o Censo Demográfico 2010, era de 2,38 filhos por mulher, em 2000, e passou a a 1,90 filho por mulher. A queda na década é de 20,1%.
Mortalidade infantil
A taxa de mortalidade infantil obtida por método indireto com as informações do Censo Demográfico 2010 foi de 15,6‰, o que representa 15,6 óbitos de crianças menores de 1 ano para cada 1.000 nascidos vivos.
Segundo o IBGE, a fonte de dados natural para o cálculo deste indicador deveria ser o registro de nascimentos e óbitos, de acordo com as Estatísticas do Registro Civil ou pelo Sistema de Informações de Nascidos Vivos (Sinasc). No entanto, o instituto considerou que os dados fornecidos pelas duas fontes ainda possuem limitações de cobertura nos estados, especialmente no Norte e Nordeste.
Rendimento
Apenas 0,9% da população brasileira ganhava mais de 20 salários mínimos de rendimento mensal em 2010. A parcela sem rendimento foi de 6,6% e a das com remuneração de até um salário mínimo foi de 32,7%. As pessoas que ganhavam mais de dez salários mínimos mensais chegou a 3,1% da população ocupada.
O rendimento médio mensal de todos os trabalhos das pessoas ocupadas no país teve crescimento real de 5,5%, de 2000 para 2010. O incremento no rendimento das mulheres foi de 13,5% maior do que no dos homens, que chegou a 4,1% na década.
Deslocamento
Do total de 59,6 milhões de pessoas que frequentavam escola ou creche, 55,2 milhões (92,7%) estudavam no próprio município de residência. No Sudeste esse deslocamento foi de dois milhões (8,5%) de estudantes, sendo que a maioria estava em São Paulo (1,1 milhão de pessoas), o que representa 57% da região.
Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro também foi elevado o número de pessoas em deslocamento para outro município para estudar, com 432 mil e 334 mil, respectivamente.
No Nordeste, o deslocamento para outro município chegou a 1,1 milhão de estudantes. A situação foi pior na Bahia e em Pernambuco, com 236 mil e 224 mil pessoas, respectivamente.
No Sul, 709 mil estudantes precisavam de deslocamento. No Rio Grande do Sul, 284 mil estudavam fora de seu município de residência.
No Centro-Oeste, Goiás se destacava pelo deslocamento de 165 mil pessoas que estudavam em outro município. No Norte, o deslocamento para estudo foi maior no Pará, com 110 mil estudantes saindo para outra cidade.
Domicílios
Em 2010, 97,8% dos domicílios no Brasil tinham as paredes externas construídas com algum tipo de material durável, como alvenaria com revestimento (80%).

No Sudeste, a maior incidência é de residências com paredes externas de alvenaria com revestimento (88,6%). No Centro-Oeste (81,4%) e Nordeste (81,2%). No Norte, a incidência deste tipo de material foi de 47,9% e, no Sul, de 67,6%.O Censo Demográfico 2010 pesquisou as deficiências visual, auditiva, mental e motora e seus graus de severidade, o que permitiu conhecer a parcela da população que é incluída nas políticas públicas específicas. A metodologia considerou os graus de severidade de deficiências das pessoas que responderam “sim, grande dificuldade” ou “sim, não consegue de modo algum”.

Para mais informações sobre dados da população do Brasil digite IBGE na parte inferior de busca do blog.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Influência humana no aquecimento global é evidente, alerta novo relatório do IPCC (da ONU).

Aumento das concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso na atmosfera foram substancialmente registrados desde o início da era industrial e persistirão por séculos.






As atividades industriais do ser humano têm sido a causa dominante das mudanças climáticas globais desde meados do século 20 e as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa, que apresentam níveis nunca antes vistos em pelo menos 800 mil anos, vão persistir por muitos séculos. É o que afirma a versão final do relatório apoiado pela ONU sobre mudanças climáticas lançado na última quinta-feira (30).
O documento, que explica as ameaças do aquecimento global, como o derretimento da cobertura de gelo da Groenlândia e da Antártida, a elevação dos níveis dos oceanos, aumento de ciclones e ondas de calor, é um resumo das conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
“Limitar as alterações climáticas vai exigir reduções substanciais de emissões de gases de efeito estufa”, ressalta a publicação, acrescentando que mesmo que as emissões de dióxido de carbono (CO2) parem, as consequências das alterações climáticas vão persistir por muitos séculos.
“A influência humana foi detectada no aquecimento da atmosfera e do oceano, em mudanças no ciclo global da água, em reduções de neve e gelo, no aumento global do nível do mar e em mudanças em alguns eventos climáticos extremos”, diz o relatório.
O documento ressalta que é muito provável que mais da metade do aumento observado na temperatura média da superfície global de 1951 a 2010 foi causado pelo aumento de gases de efeito estufa emitido por atividades humanas. Algumas das principais emissões de CO2, metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) foram feitas desde o início da era industrial, há 250 anos.
Ele observa que cada uma das últimas três décadas tem sido sucessivamente mais quente na superfície da Terra do que qualquer década anterior desde 1850 e mudanças climáticas extremas têm sido notadas desde cerca de 1950, com frequentes ondas de calor na Europa, Ásia e Austrália e aumento ou diminuição de chuvas em alguns lugares da América do Norte e da Europa.
Nas regiões frias, o relatório afirma que a média anual do gelo do mar Ártico diminuiu ao longo do período de 1979 a 2012 a aproximadamente 3,5% a 4,1% por década. A temperatura do subsolo congelado também aumentou desde o século 20.
Em partes do norte do Alasca, a temperatura subiu 3ºC e no norte da Rússia até 2ºC. Quanto ao nível do mar, o aumento registrado de 1901 a 2010 de 0,19 metros foi maior do que o aumento registrado nos últimos dois milênios.
Na maioria dos cenários estudados pelo IPCC, as mudança de temperatura da superfície global para o final do século 21 devem ultrapassar os 1,5°C em relação a 1850-1900, porém, podendo chegar a 2ºC.

O relatório ainda prevê que, até o final do século, a cobertura de gelo nos polos e no hemisfério norte vai continuar diminuindo e os níveis do mar e a temperatura aumentando. Acesse o documento emwww.climatechange2013.org