segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Agentes Internos da Terra - VULCANISMO

Vulcão despertou no dia 20/2014 de dezembro na Polinésia

O acúmulo de rochas e cinzas provocado por um vulcão em erupção deu origem a uma nova ilha no arquipélago polinésio de Tonga. O vulcão fica a 65 quilômetros a noroeste da capital Nuku’alofa e despertou no dia 20 de dezembro.
Segundo o ministério de Terras e Recursos Naturais, fazia cinco anos que o vulcão não despertava. A erupção aconteceu através de duas crateras, uma situada na ilha desabitada de Hunga Ha’apai e a outra submarina, a cem metros da costa. 
Na última quinta-feira (15/01/2015), especialistas inspecionaram a região de barco e constataram que a erupção havia mudado a paisagem. “A nova ilha tem mais de um quilômetro de comprimento, dois de largura e uma centena de metros de altura”, declarou o ministério em um comunicado.
O texto ainda informa que “o vulcão lançava a cada cinco minutos, mais ou menos, cinzas e rochas a 400 metros de altura”.
Tonga, um reino de 170 ilhas que conta com 120 mil habitantes, está localizado sobre o cinturão de fogo do Pacífico, onde as placas continentais se encontram, provocando uma atividade sísmica e vulcânica muito intensa.

A erupção provocou grandes danos à vegetação das ilhas de Hunga Tonga e de Hunga Ha’apai.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Obama anuncia um 'novo capítulo' nas relações entre EUA e Cuba (Carta Maior)

O histórico passo anunciado por Washington para normalizar relações com Cuba representa o primeiro movimento para deixar para trás meio século de tensões.






O presidente americano Barack Obama anunciou nesta quarta-feira (17/12/2014) o início de um ''novo capítulo'' nas relações de Washington com Cuba e prometeu que examinará, junto do congresso, o fim do embargo à Cuba. Obama declarou que era tempo de acabar com um 'enfoque antiquado' sobre a ilha. 
O mandatário ainda anunciou que o governo revisará a permanência de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Em um discurso à nação, ele anunciou que os dois países fizeram um acordo para iniciar vínculos econômicos e de viagens.
Durante a terça-feira (16-12-2014), Obama teve uma longa conversa telefônica com o líder cubano Raúl Castro, onde ambos fizeram um acordo para a instalação de embaixadas ''nos próximos meses.''
O governo dos Estados Unidos iniciou uma aproximação histórica de Cuba, ao anunciar a normalização das relações diplomáticas plenas e o alívio de diversas sanções vigentes há meio século, informou uma fonte da Casa Branca.
Termina meio século de tensões entre Cuba e Estados Unidos.
O histórico passo anunciado por Washington para normalizar as relações com Cuba representa o primeiro movimento para deixar para trás meio século de tensões bilaterais.
Os dois países não possuem relações diplomáticas formais desde 1961, e em 1977 instalaram escritórios de interesses em Washington e em Havana, sob o cuidado da embaixada suíça.
Em 1961 os Estados Unidos ofereceram suporte logístico para uma invasão de milicianos cubanos à Cuba, que terminou sem sucesso, com a captura da maioria deles logo que desembarcaram na região de Playa Girón, ao centro-sul da ilha.
Um ano mais tarde, a relação bilateral alcançou seu ponto mais crítico depois que aviões americanos descobriram que misseis soviéticos haviam sido instalados com ogivas nucleares em várias localidades de Cuba.
A crise dos mísseis deixou o mundo inteiro em suspense diante da possibilidade de um holocausto nuclear, até que a União Soviética desativou os mísseis ao mesmo tempo que os Estados Unidos desativou foguetes que foram instalados na Turquia e se comprometeu a não invadir a pequena ilha comunista, situada a pouco mais de 100 quilômetros de suas fronteiras.

Desde então os Estados Unidos adotou um rígido conjunto de normas que literalmente deixaram Cuba ilhada do comércio exterior, com exceção dos países socialistas.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A cúpula de Lima dará um empurrão nas tecnologias verdes? (Carta Maior)

Lima, Peru, 4/12/2014 – O caminho para a economia verde está cheio de recompensas e riscos, e os responsáveis políticos devem tratar de equilibrá-­lo para que prospere a transição para as fontes de energia baixas em carbono, afirmam especialistas climáticos que participam da cúpula do clima na capital peruana. “Creio que o importante é que na maioria desses processos haverá ganhadores e perdedores”, afirmou à IPS John Christensen, diretor do Centro sobre Energia, Clima e Desenvolvimento Sustentável, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
“Devemos estar conscientes de que há pessoas que vão perder e que será preciso cuidar delas para que não se sintam excluídas. Devemos encontrar outras formas de torná-las participantes, porque do contrário haverá muita resistência por parte de grupos que têm interesses especiais”, afirmou Christensen por ocasião da 20ª Conferência das Partes (COP 20) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática que acontece em Lima, no Peru.
Entre os dias 1º e 12, representantes de 195 países e centenas de membros da sociedade civil negociam o rascunho de um novo tratado mundial destinado a reverter o aquecimento do planeta, que deverá ser assinado dentro de um ano na conferência de Paris. A COP 20 oferecerá um adiantamento do que se pode esperar do Protocolo de Paris em relação à eliminação no longo prazo das usinas elétricas movidas a carvão, a taxa de utilização de energias renováveis e o apoio financeiro e tecnológico aos países vulneráveis e de menor desenvolvimento.
Por exemplo, Neves, uma ilha de 13 quilômetros de comprimento no Caribe, anunciou recentemente que está “prestes a passar a ser totalmente ecológica”. Seu vice primeiro ministro e ministro do Turismo, Marcos Brantley, se referiu à situação de geração de combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis, a fim de desenvolver o turismo.
“Além de reduzir a pegada de carbono nacional, a preocupação pela gestão de resíduos é um tema particularmente difícil para todas as nações”, afirmou Brantley. Neves contratou a empresa norte­americana Omni Alfa para extrair energia de seus resíduos e construir um parque de energia solar, destacou. O ministro pontuou à IPS que esses avanços, “junto com o desenvolvimento de nossas fontes de energia geotérmica, prometem fazer de Neves o lugar mais ecológico na terra”. Christensen disse que a reunião do Caribe poderia aprender lições com a Dinamarca, seu país de nascimento. Os estaleiros dinamarqueses não podiam competir com os da Coreia do Sul e da China, e “o governo por muito tempo continuou injetando dinheiro para tentar mantê-los respirando, em lugar de tentar a transição para outra coisa. Agora produzem moinhos de vento e outras coisas com mais futuro”, explicou.
Muitos países do Caribe usam óleo combustível ou diesel para produzir energia, além de gasolina para automóveis, tudo o que precisa ser importado, apontou Christensen. Mas poucos países insulares contam com os recursos financeiros necessários para pagar anualmente as importações de combustíveis, que são “bastante caras”, assegurou. Esses países deveriam aproveitar sua localização geográfica, que oferece “muito sol, potencial para biomassa e vento”, sugeriu.
Cuba fez uma transição importante para a energia solar no setor energético”, disse Christensen, e outros países do Caribe apostam na conservação das florestas e aproveitam mais recursos ambientais que antes consideravam sem valor. “Agora temos que falar sobre o que acontecerá se os países não avançarem. Como todas as ilhas, seus riscos de inundação aumentarão. Por isso, na transição verde, os países têm de buscar a forma de serem mais resistentes”, ressaltou. Segundo Christensen, “há formas de melhorar a eficiência, porque o clima está cada vez mais quente, e, pelo lugar em que estão, é necessário buscar novas oportunidades na economia verde que também os protejam da mudança climática no futuro”.
O Centro e Rede de Tecnologia do Clima (CRTC), braço operacional do Mecanismo de Tecnologia da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC), incentiva a transferência acelerada, diversificada e gradual de tecnologias ecologicamente viáveis para a mitigação e adaptação à mudança climática no Sul em desenvolvimento, em linha com suas prioridades de desenvolvimento sustentável.
A CMNUCC realiza em Lima sua 20ª conferência anual das partes, que desde 2005 tem como instrumento em vigor o Protocolo de Kyoto, que deverá ser substituído pelo de Paris a partir de 2020“O CRTC é um motor, um veículo para ajudar os países a conseguirem economias verdes”, explicou à IPS Jason Spensley, a sua gerente de tecnologia climática. “Nos próximos dias veremos uma solicitação de Antiga e Barbuda relativa ao desenvolvimento da energia renovável, e especificamente da eólica… o preço da energia ali é muito alto”, afirmou.
A República Dominicana também negocia com o CRTC a apresentação de um pedido de produção de energia renovável. Nos últimos tempos o Banco de Desenvolvimento do Caribe, a maior instituição de crédito da região, redobrou as gestões para atrair o investimento em projetos de energia renovável e adaptação à mudança climática na região. Seu presidente, Warren Smith, disse que grande parte do Caribe oriental, que inclui os menores países, tem um grande potencial geotérmico que permitiria reduzir drasticamente a importação de combustíveis fósseis e até convertê-los em exportadores de energia, devido à proximidade de ilhas sem esses recursos.

Christiana Figueres, secretária­executiva da CMNUCC, exortou na COP 20 os 12.400 assistentes a desejarem grandes alturas e propôs várias linhas de ação fundamentais. “Primeiro, devemos trazer à mesa o projeto de um novo acordo universal sobre a mudança climática e explicar como serão comunicadas as contribuições nacionais no próximo ano”, enfatizou. “Segundo, devemos consolidar os progressos em matéria de adaptação para conseguir a paridade política com a mitigação, devido à urgência de ambas por igual”, acrescentou Figueres. “Terceiro, é preciso melhorar a prestação de financiamento, em particular para os mais vulneráveis. Por fim, devemos estimular a ação cada vez maior por parte de todos os interessados para ampliar o alcance e acelerar as soluções que nos façam avançar a todos, mais rápido”, concluiu. Envolverde/IPS

terça-feira, 11 de novembro de 2014

GERAÇÃO EÓLICA AVANÇA DE VENTO EM POPA (Clube Mundo)

Abundante, limpa, renovável e disponível em muitos lugares, a força dos ventos é capturada por aerogeradores e transformada em eletricidade pelas usinas eólicas. Por isso, a avaliação do potencial eólico de um determinado local exige um conhecimento técnico detalhado, especialmente do comportamento dos ventos em termos de constância, intensidade e direção, que sofrem influências de fatores como relevo e rugosidade do terreno.
Não basta uma brisa. Para ser aproveitável comercialmente, a energia eólica requer velocidade mínima do vento de 7 a 8 metros por segundo, à altura de 50 metros do solo. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, apenas 13% das terras emersas do globo se encaixam nessa categoria, mas a proporção varia bastante entre continentes e regiões. As terras emersas não são o limite: países de pequena extensão territorial e densidades demográficas mais ou menos elevadas, como a Dinamarca, já há algum tempo instalaram parques eólicos na plataforma continental (offshore).
Embora a força dos ventos seja utilizada há muitos séculos, seu aproveitamento em escala comercial para a geração elétrica iniciou-se na década de 1970, como decorrência dos “choques do petróleo”. Foi naquela época que os Estados Unidos e alguns países da Europa resolveram investir em fontes alternativas para a produção de energia elétrica, a fim de diminuir a dependência do “ouro negro”.
Nas duas últimas décadas, a questão ambiental ganhou contornos políticos mais agudos. A energia hidrelétrica, uma fonte renovável e limpa, tornou-se alvo de controvérsias, em função do impacto ambiental da instalação de grandes barragens (pense em Belo Monte, por exemplo). Por isso, os defensores do desenvolvimento de energias renováveis apostaram suas fichas em fontes dispersas no espaço geográfico que permitam uma produção descentralizada e que tenham limitado impacto ambiental. Entre todas as fontes alternativas, é a eólica que apresenta maior incremento na atualidade: em pouco mais de dez anos, quintuplicou-se a potência global instalada desses “moinhos de vento” pós-modernos.
Ainda não são tão numerosos os países engajados no desenvolvimento desse tipo de energia. Alguns deles, como Alemanha e Espanha, foram pioneiros na criação de legislações específicas para subvencionar a geração eólica. Até 2007, a Alemanha ocupou a liderança da produção eólica, chegando a ser responsável por 25% do total instalado no mundo. Mas o dinamismo do setor vem promovendo transformações muito rápidas: em 2008, os Estados Unidos ultrapassaram a Alemanha e, dois anos depois, a China galgou o primeiro posto (veja o gráfico 1).

Os dez países com maior produção de energia eólica são responsáveis por cerca de 80% da potência global instalada – um dado estatístico que indica as amplas possibilidades de crescimento dessa fonte energética. Atualmente, pouco mais de 30% da produção total de energia eólica está, ainda, concentrada na Europa – mas o avanço dos Estados Unidos, da China e de outros países asiáticos modificará o cenário, de forma radical, nas próximas décadas.
Apesar do rápido crescimento, a fonte eólica representa apenas 2% da matriz elétrica mundial, embora em alguns países europeus essa participação seja maior. Na Alemanha, a participação é pouco superior a 7%, enquanto na Espanha chega a 25%. Na China e nos Estados Unidos, consumidores vorazes de energia, a participação da fonte eólica na matriz elétrica é inferior a 3%.
O Brasil está no jogo. No país, o uso da fonte eólica para a geração elétrica conheceu crescimento exponencial na última década. Entre 2001 e 2013, saltamos de sete usinas eólicas para 90. A capacidade instalada passou de insignificantes 22 megawatts (MW), em 2002, para cerca de 2 mil MW em 2012. Segundo a Empresa de Pesquisas Energéticas, em 2020 a participação da fonte eólica na matriz elétrica do Brasil deverá crescer de 1% para 7%, o que poderia transformá-la na segunda maior fonte de geração de eletricidade do país.
Entre os vários fatores que explicam esse crescimento, merece destaque a criação pelo governo federal, em 2002, do Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). O programa, com foco nas regiões Nordeste e Sudeste, tem os objetivos de ampliar a participação de fontes alternativas na matriz elétrica e de racionalizar a oferta energética por meio da complementaridade entre os regimes eólico, de biomassa e hidrológico. Paralelamente, a decolagem da fonte eólica beneficiou-se da queda expressiva no preço da geração de energia, que tornou-se menor que o da biomassa e das pequenas centrais elétricas (PCHs) e, na sequência, que o das usinas termelétricas movidas a gás natural (veja o gráfico 2).


O impulso final veio com uma mudança de regra nos leilões de energia promovidos pelo governo. Até 2012, fazia-se o leilão de geração e, depois, o da linha de transmissão, um método que deixava parques eólicos prontos à espera de sistemas de transmissão. Pela nova regra, o parque eólico deve ter linhas de transmissão previstas já no leilão, de modo que todo o conjunto de geração e transmissão entre em operação simultaneamente. Observe-se que, quase sempre, os locais onde se instalam as usinas eólicas são distantes dos mercados de maior consumo.
As regiões brasileiras com maior número de usinas e maior capacidade instalada são o Nordeste e o Sul – que, juntas, respondem por mais de 80% dos parques eólicos, da geração energética e dos investimentos previstos para os próximos anos. Entre os estados, destacam-se Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Rio Grande do Sul (veja o mapa).


Nem tudo são flores. A fonte eólica também tem impactos ambientais, associadas a poluições sonora e visual dos aerogeradores e à implantação de extensas linhas de transmissão. A energia eólica nunca dará conta, sozinha, das necessidades energéticas do Brasil, mas contribuirá decisivamente para complementar a produção das hidrelétricas. Por sorte, o período de ventos mais fortes na porção tropical do país (inverno) coincide com o de menor pluviosidade, justamente quando o nível dos reservatórios das hidrelétricas costuma descer até patamares críticos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Pouco investimento e seca histórica explicam falta d'água em São Paulo. Dependência da Grande São Paulo do sistema Cantareira revela as dimensões estruturais do problema, aponta Marcelo Vargas, professor da Ufscar

Uma das maiores estiagens da história, somada a problemas estruturais no sistema de abastecimento de água, atormenta moradores da maior cidade da América do Sul. Mais da metade dos moradores de São Paulo ficou sem água em casa em algum momento do último mês – e, na segunda-feira (20/10), o sistema Cantareira, que abastece a metrópole, baixou para o menor nível de sua história: está com 3,5% da capacidade de armazenamento.
Enquanto paulistanos penam guardando água em baldes e limitam o consumo ao mínimo, buscam entender o que houve.  O doutor em planejamento urbano e professor da Universidade Federal da São Carlos (Ufscar) Marcelo Vargas relaciona os motivos que geraram a crise hídrica em São Paulo e as consequências da escassez d´água.
Quais são as causas do desabastecimento em São Paulo?
A falta de água na Grande São Paulo tem causas conjunturais e estruturais. Em termos conjunturais, o último verão, que normalmente se caracteriza como uma estação de chuvas foi um dos mais secos e quentes da história não apenas na região da capital e seu entorno, mas também em grande parte do sudeste, especialmente em Minas Gerais e no Vale do Piracicaba, de onde vem a maior parte da água que abastece a região metropolitana, através do Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de quase metade da população da metrópole.
Essa estiagem severa permaneceu nos meses seguintes, quando há naturalmente menos chuvas na região. Com pouca chuva e maior consumo, devido ao calor, os rios e represas que abastecem o Sistema Cantareira caíram ao menor nível já registrado desde 1930.
E em termos estruturais?
A própria dependência da Grande São Paulo do sistema Cantareira revela as dimensões estruturais do problema. São Paulo é uma metrópole mal localizada: a maior parte dos seus quase 20 milhões de habitantes mora na região de cabeceiras do rio Tietê, na bacia hidrográfica do Alto Tietê, onde o rio tem menos água do que no seu curso. Assim, a disponibilidade de água per capita desta bacia é de apenas 200 m³ por ano por pessoa.
De acordo com a ONU, uma região enfrenta uma situação de estresse hídrico quando apresenta uma disponibilidade de água anual inferior a 1.700 m³ per capita. Abaixo de 1.000 m³ por pessoa por ano já caracteriza uma situação de grave escassez. Para complicar, há 5 milhões de pessoas na bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que também dependem das águas represadas no sistema Cantareira.
Quais são as consequências para a população?
As consequências são a falta d'agua para as atividades domésticas e comerciais de muitos estabelecimentos durante horas ou mesmo dias seguidos, sobretudo nas regiões mais altas e afastadas dos centros onde se faz a reserva, o que pode gerar desconforto, problemas econômicos e de saúde.
O que poderia ter sido feito, em âmbito estadual, para que a situação não chegasse a esse ponto?
A Sabesp deveria ter investido em novos sistemas de produção de água potável que captassem água de outros mananciais regionais, para diminuir sua dependência do Sistema Cantareira, como estava previsto desde 2004, quando foi renovada a licença federal que a companhia estadual de saneamento obteve em 1974 para construir e operar o sistema, que lhe permite retirar até 31m³ por segundo da bacia do Piracicaba. Essa foi uma das condições para a renovação da licença, concedida pela Agência Nacional de Águas (ANA), cuja validade se encerrava em agosto deste ano.
Porém, com a crise provocada pela grave estiagem deste ano, as negociações para a renovação desta licença foram suspensas, e a outorga dos diretos de uso desta água (o nome técnico desta licença) obtida pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em 2004 foi provisoriamente renovada por mais um ano. A Sabesp e outros órgãos estaduais fizeram diversos estudos de diferentes alternativas, mas há apenas um sistema produtor de água potável sendo construído, o Sistema São Lourenço, que capta água no Vale do Ribeira (sul de SP), cujas obras estão atrasadas e só devem ser concluídas em 2016.
Em âmbito nacional, alguma medida poderia ter diminuído o problema?
Os rios e represas que abastecem o Sistema Cantareira são águas de domínio da União, pois banham mais de um Estado, uma vez que as nascentes destes rios estão em território mineiro. Isso faz com que a Sabesp, companhia de saneamento básico do Estado de São Paulo, dependa de autorização federal para captar e "exportar" estas águas para a região metropolitana da capital.
A Agência Nacional de Águas tem se articulado com os comitês de bacia hidrográfica do Alto Tietê e do Piracicaba, com a Sabesp e o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de SP (DAEE) para administrar essa crise. Mas não caberia à Agência Nacional de Águas, creio intervir no planejamento da Sabesp e dos órgãos estaduais.
E para afastar as chances de este problema voltar, no futuro, o que deve ser feito?
Não creio que haja apenas uma linha de ação a ser tomada, mas várias. Certamente será preciso investir em novos sistemas de produção de água que busquem mananciais alternativos no vale do Paraíba, na Baixada Santista e noutras regiões vizinhas da metrópole, como preveem diversos estudos. Também é necessário interligar estes sistemas, para que haja mais flexibilidade na transposição de águas de reservatórios mais cheios para os mais vazios.

Será preciso ainda educar a população e as empresas para racionalizar o uso da água, com multas ou tarifas mais altas durante períodos de escassez, educação ambiental e uso de equipamentos mais eficientes, que evitem desperdícios. Também é preciso aumentar a eficiência operacional da Sabesp, que ainda apresenta índices elevados de perdas (cerca de 20% da água produzida se perde em vazamentos), além de investir em tecnologias de reutilização da água.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Uso de charges políticas no Enem

Neste texto são oferecidas algumas dicas sobre o uso de charges políticas no Enem, além da análise de uma questão de 2012.

As charges, ou cartuns, aparecem com frequência nas provas de Ciências Humanas do Enem
Algumas dicas referentes ao uso de charges políticas no Enem, bem como a análise de uma questão do Enem de 2012 exatamente sobre esse tema. 
O Enem, assim como outros processos seletivos e vestibulares, não elabora suas questões usando apenas textos como ponto de partida. Geralmente, há o emprego de outras linguagens, como a fotografia, a pintura, os mapas e os gráficos. Pois bem, a charge, com certa frequência, também figura entre essas linguagens utilizadas no Enem. Por isso é necessário compreender o que é a charge e como ela consegue transmitir ideias e opiniões de forma diferente de um texto escrito. 
O termo charge vem do francês e significa “carga”, no sentido de concentração de algo ou alguma coisa. Na língua inglesa, a palavra que designa esse tipo de desenho é cartoon (ou cartum, como normalmente é escrita em português), que significa esboço, desenho esboçado, entre outros. Sendo assim, o desenho da charge (ou cartum) geralmente concentra uma crítica moral, política ou cultural em sua estrutura. O chargista (desenhista profissional), portanto, procura sintetizar uma ideia em seu desenho. Às vezes o desenho da charge pode estar acompanhado de uma mensagem escrita, que objetiva reforçar a crítica, mas isso não é regra geral. O humor, a sátira e a ironia dão a tônica da charge. Sob o aspecto cômico reside a crítica. 
O desenho da charge, desde o século XIX, tem como espaço de desenvolvimento a imprensa, ou seja, jornais e revistas, e funciona como um complemento às colunas de opinião desses veículos de informação. Do mesmo modo que uma crônica ou uma coluna podem valer-se da ironia para criticar algo, a charge também o faz através da linguagem do desenho. As variações do desenho da charge são, de forma geral, a tira (ou tirinha), que divide os desenhos e quadros de ação, como em uma história em quadrinhos bem curta, e a caricatura, que exagera alguns aspectos da personalidade satirizada.
No Brasil, um dos primeiros chargistas a ter destaque foi o italiano Angelo Agostini (1843-1910), que ridicularizou grandes personalidades políticas brasileiras, como Dom Pedro II. No século XX, especialmente a partir dos anos 1960, a charge ganhou o gosto popular, e alguns chargistas tornaram-se muito conhecidos, como aqueles que trabalharam na Revista O Cruzeiro e no jornal O Pasquim, como Jaguar, Fortuna, Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil, Claudius, entre outros.  
Nos vestibulares e no Enem, o uso da charge objetiva explorar algum aspecto de crítica de cunho social e político. Sendo assim, a charge política, com viés tipicamente político, está mais amplamente presente nas provas. É o caso da prova da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias do Enem de 2012. Abaixo vocês podem conferir a questão de número 08, do caderno azul, número 1. A alternativa correta está marcada na cor verde:

Questão do Enem de 2012 que fez uso de uma charge
Reparem que a questão está estruturada a partir de uma charge, ou cartum, de 1932, referente ao líder indiano Mahatma Gandhi. A questão exige que o candidato assinale a alternativa que corresponde àquilo que a charge demonstra com relação ao contexto das prisões de Gandhi na Índia. Observando bem a imagem, percebe-se a figura de Mahatma Gandhi atrás das grades e, diante dele, um guarda com uma chave prestes a abrir o cadeado que prende o líder, pressionado que está por uma multidão de “outros Gandhis”. As prisões de Gandhi ocorreram em virtude de seus protestos pela independência da Índia na primeira metade do século XX. A única alternativa que corresponde à leitura exata da charge é a letra D, que está correta. 
Dessa forma, é importante prestar muita atenção na forma como o desenho está organizado, pois é nessa forma que reside a mensagem do chargista. Não importa o contexto histórico abordado, o cartum ou a charge sempre terão que ser bem interpretados para não se esbarrar em ambiguidades que impeçam um bom desempenho na prova.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

BLOCO EUROPEU REATIVA OS NACIONALISMOS REGIONAIS E ÉTNICOS.

No primeiro dia de julho, a Croácia se tornará o 28º integrante da União Europeia. O processo de incorporação do país balcânico, que até 2001 fazia parte da antiga Iugoslávia, iniciou-se em 2003 e arrastou-se ao sabor dos ajustes dos critérios de adesão impostos pelo bloco. O Parlamento Europeu aprovou a entrada do país em dezembro de 2011. Em referendo, realizado no mês seguinte, cerca de dois terços dos eleitores croatas votaram pela adesão.
O tratado da União Europeia estabelece que qualquer país do continente pode se candidatar à entrada no bloco, desde que respeite seus valores democráticos e se comprometa a promovê-los. Em linhas gerais, os critérios de adesão estão ligados a aspectos políticos, econômicos e jurídicos. No âmbito político, a União Europeia estabelece que o país candidato tenha instituições capazes de garantir a democracia, o Estado de direito e o respeito aos direitos humanos. No plano econômico, o candidato deverá ter uma economia de mercado e contas públicas estáveis. Por fim, juridicamente, deverá se enquadrar na legislação do bloco no que se refere aos objetivos da união política, econômica e monetária.
Desde 1957, quando foi criada a Comunidade Europeia, embrião do bloco atual, os países-membros definiram dois grandes objetivos. O primeiro era o de aprofundar o relacionamento entre si, e o segundo, o de ampliar o número de seus integrantes. A integração vertical conheceu um forte avanço em 1992, quando o Tratado de Roma, documento básico original do bloco, foi substituído pelo Tratado de Maastricht – que, entre outros aspectos, definiu a adoção de uma moeda comum, que hoje circula em 16
países da União Europeia.
A ampliação do número de membros foi gradativa, a partir do núcleo original formado pelos signatários do Tratado de Roma (França, Alemanha Ocidental, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo). No início da década de 1970, Grã-Bretanha, Irlanda e Dinamarca foram incorporadas ao bloco. Na década seguinte, foi a vez de Portugal, Espanha e Grécia, a “periferia mediterrânica”. Nos anos 1990, ingressaram a Áustria, a Suécia e a Finlândia.

Com a queda do Muro de Berlim e o encerramento da Guerra Fria, o alargamento deu um grande salto. Em 2004, dez países foram incorporados, incluindo nações que haviam pertencido ao bloco soviético da Europa oriental (Polônia, Hungria, República Tcheca e Eslováquia), as três repúblicas bálticas da antiga União Soviética (Estônia, Letônia e Lituânia), a antiga república iugoslava da Eslovênia, além dos pequenos Estados insulares de Chipre e Malta que, até 1960, eram colônias britânicas. Três anos mais tarde, ingressaram a Romênia e a Bulgária, antigos satélites soviéticos. Meio século depois, a Europa dos Seis de 1957 se transformou na Europa dos 27 (veja o mapa 1).
Atualmente, cinco países – Turquia, Islândia, Sérvia, Macedônia e Montenegro – têm o estatuto de candidatos oficiais à adesão à União Europeia. É provável que a Islândia seja a próxima candidata aprovada, já em 2014. Sérvia, Macedônia e Montenegro, que, como a Croácia, fizeram parte da Iugoslávia, podem ser incorporadas entre 2015 e 2017.
O caso da Turquia é mais complicado. Há quatro décadas, o país apresentou sua candidatura. De lá para cá, alegações geográficas, históricas e culturais têm sido utilizadas para justificar a recusa da União Europeia em admitir a Turquia. No fundo, as resistências decorrem de uma circunstância cultural e religiosa: o país muçulmano não faria parte da “civilização europeia”. Com cerca de 75 milhões de habitantes, a Turquia seria o país mais populoso do bloco tendo, por conseguinte, o maior número de representantes nas instituições da União Europeia.
O bloco europeu funciona como moldura geopolítica e econômica capaz de viabilizar a existência de pequenas nações relativamente ricas no sistema internacional da “era da globalização”. A perspectiva de ingresso na União Europeia, com suas instituições supranacionais, seu mercado unificado e sua moeda comum, oferece horizontes para os pequenos países oriundos da implosão da antiga Iugoslávia. O mesmo fator, contudo, reativa nacionalismos étnicos tradicionais em países da Europa ocidental. No contexto da crise econômica que se desenvolve na Europa desde 2009, movimentos separatistas ganharam alento na Catalunha, na Espanha, na região belga de Flandres e na Escócia.
A Catalunha é uma das 17 comunidades autônomas que dividem a Espanha (veja o mapa 2). A economia catalã gera pouco mais de 20% do PIB espanhol e o PIB per capita regional é o maior do país. Os velhos ideais separatistas catalães reemergiram sob a forma de uma disputa fiscal entre o governo regional e o governo nacional. Os nacionalistas catalães, organizados em partidos de centro e de esquerda que têm maioria no parlamento regional, contestam o sistema de distribuição de tributos e acusam Madri de “explorar” a Catalunha. O governo da região promete realizar um plebiscito sobre a independência, algo que violaria a Constituição espanhola.

Na Escócia, ao menos superficialmente, desenrola-se processo similar. Os nacionalistas escoceses pretendem promover um referendo sobre a independência em outubro de 2014. O paralelo com a Catalunha, contudo, não é inteiramente adequado, pois a Escócia é definida como uma das nações constitutivas da Grã-Bretanha, e a legislação britânica admite a hipótese da separação, que exigiria apenas uma nítida manifestação da vontade majoritária dos escoceses.
A União Europeia funciona como o grande argumento dos líderes separatistas. Quase todos eles sugerem aos potenciais eleitores que, uma vez independentes, os novos países se integrariam, automaticamente, ao bloco europeu. As coisas, porém, são bem mais complicadas. Segundo os tratados da União Europeia, no caso da fragmentação de Estados, apenas os “Estados sucessores” conservariam o estatuto de membros do bloco. A Espanha permaneceria na União Europeia após uma hipotética secessão catalã, assim como a Grã-Bretanha depois de uma separação escocesa. Mas Catalunha, Escócia ou Flandres teriam que solicitar adesão e enfrentar o mesmo processo de candidatura pelo qual passou a Croácia.

(Este texto foi publicado originalmente na edição de número 2 do jornal Mundo – abril de 2013 –, página 9)