domingo, 10 de janeiro de 2016

A Sociedade do Cansaço

Como viver, que sintomas, que doenças estão nos marcando hoje? Que mudanças e aprendizagens são mais importantes? São perguntas do livro “A Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han.
Byung-Chul Han é sul-coreano. Depois de estudar Metalurgia no seu país natal, rumou à Alemanha, onde se doutorou em Filosofia, sendo atualmente professor na Universidade de Artes de Berlim. É sobre a sua obra “A Sociedade do Cansaço” que vamos falar um pouco.

“Consideremos, em primeiro lugar, a sociedade do cansaço. Efetivamente, a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação que nos chega pelas mídias sociais, nos produzem, dizem estes autores, doenças neuronais: causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade. Efetivamente, chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados. Nem dormimos direito, desmaiamos.” (Leonardo Boff).

A sociedade ocidental do século XXI é uma sociedade marcada pelas doenças neuronais – depressão, stress, hiperatividade, déficit de atenção (repare-se nas crianças!). Estas doenças ocupam hoje o lugar antes ocupado por doenças bacterianas e virais, como a tuberculose e a gripe. Mas as doenças bacterianas e virais consistem essencialmente em elementos externos (bactérias, vírus) que afetam o nosso corpo, e aos quais podemos levantar defesas; já as doenças neuronais, por outro lado, vêm de dentro de nós, tornando-se a sua cura mais difícil.
É o estilo de vida ocidental que está provocando esta onda crescente de doenças, com efeitos devastadores nas relações, nas famílias, na vida pessoal. Trata-se “da violência da positividade, que resulta da superprodução, do superrendimento e da supercomunicação”. O contexto laboral que marcou grande parte do século XX – industrial disciplinado – está mudando: hoje, as palavras-chave são motivação, iniciativa, rendimento. Muda o âmbito da violência: já não uma violência vinda de fora – as ordens dadas por um patrão, as sirenes das fábricas – mas uma violência que se exerce na pessoa a partir de dentro – na necessidade de ser produtiva, audaz, empreendedora. Mas, e quando a pessoa não consegue atingir os “objetivos” a que se propõe e a que é proposta?
É a sociedade do «yes, we can», do «like». Como lidamos com o fracasso, experiência fundamental numa vida humana em construção, mas uma experiência que não tem lugar na sociedade moderna? Hoje, o trabalhador modelo é o trabalhador capaz do multitasking – ser capaz de realizar, na perfeição, múltiplas tarefas, ao mesmo tempo. Mas as grandes criações humanas – na ciência, na cultura, na arte – só foram possíveis através de longos períodos de atenção, silêncio e concentração. Do mesmo modo, as nossas relações familiares sofrem quando somos incapazes de lhes conceder a nossa total atenção – algo difícil no meio de todas as distrações e solicitações que nos atingem. O excesso que caracteriza a sociedade ocidental – excesso de informação, de comunicação, de emoções, de objetivos – provocam uma dispersão na pessoa, uma incapacidade de estar centrada, um desgaste mental e físico insuportável.
Como lidar com esta realidade? Como aprender a gerir e a controlar os infinitos estímulos que nos afetam, desde a comunicação à internet, passando pelas imagens e pela violência dos telejornais? Como ser capaz de “desligar”? Urge (re) aprendermos a arte da atenção, da escuta, do silêncio, do deter-se, do dar espaço, do não cair nas “engrenagens” de consumo e produção, para que o ser humano não se converta “numa máquina de rendimento, cujo objetivo consiste no funcionamento sem alterações e no máximo de rendimento”.
Trata-se de crescer na pedagogia do olhar: “Aprender a ver, que significa acostumar o olho a observar com calma e com paciência, a deixar que as coisas se aproximem dos nossos olhos, quer dizer, educar o olho para uma profunda e contemplativa atenção, para um olhar amplo e pausado. Este aprender a olhar constitui o primeiro ensinamento preliminar para a espiritualidade”. Curiosamente, o autor termina a sua obra propondo um outro tipo de Cansaço – o cansaço do Sábado bíblico, do descanso como um criar espaço, um dia em que – segundo o texto bíblico – Deus já não cria e, por isso, a Criação pode chegar à sua Plenitude. Trata-se, para o autor, de permitir que o Espírito inspire.


Byung-Chul Han, “A Sociedade do Cansaço”, Lisboa 2014.  Mensageiro de Santo António

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